Oscar: Palpites e (meus) favoritos

A entrega do Oscar acontece no próximo domingo e resolvi criar um post com palpites. Vou dizer quem eu acho que vai levar o prêmio e quem eu acho que deveria. Então, vamos ver se acerto alguma coisa.

Obs.: Como não vi nenhum dos indicados a curta-metragem ou documentário, não vou opinar sobre essas categorias.

Melhor filme

Essa é a principal categoria do Oscar e a mais difícil de predizer. Mas vamos lá. Acho que a Academia vai se render a Aronofsky. Cisne Negro é um filme completo, digno da estatueta. Porém, gostaria muito que A Origem levasse o prêmio. Por ser uma ficção científica para as massas, mas ao mesmo tempo ser um ótimo exemplar de cinema. Merecia. Mas acho difícil. Os indicados são:

Cisne Negro
O Vencedor
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Minhas Mães e meu Pai
Toy Story 3
127 Horas
Bravura Indômita
Inverno da Alma

Melhor diretor

A segunda mais difícil, os concorrentes são muito bons. Darren Aronofsky deve levar principalmente porque já deveria ter ganho esse prêmio. Mas eu também gostaria de David Fincher levantando a estatueta. Ele também já deveria ter levado um Oscar pra casa.

Darren Aronofsky – Cisne Negro
David Fincher – A Rede Social
Tom Hooper – O Discurso do Rei
David O. Russell – O Vencedor
Joel e Ethan Coen – Bravura Indômita

Melhor ator

Bem provável que Colin Firth leve o prêmio, afinal ele tem recebido muitos elogios e já ganhou o BAFTA, o equivalente inglês do Oscar. Pessoalmente gostaria do Jeff Bridges. Seria seu segundo Oscar seguido além do segundo Oscar pro personagem, que fez John Wayne ganhar seu primeiro e único homenzinho dourado pelo Bravura Indômita original.

Jesse Eisenberg – A Rede Social
Colin Firth – O Discurso do Rei
James Franco – 127 Horas
Jeff Bridges – Bravura Indômita
Javier Bardem – Biutiful

Melhor atriz

Não tem pra ninguém. Natalie Portman se não ganhar esse prêmio, não ganha mais. A interpretação dela em Cisne Negro é visceral, tem que levar.

Nicole Kidman – Reencontrando a Felicidade
Jennifer Lawrence – Inverno da Alma
Natalie Portman – Cisne Negro
Michelle Williams – Blue Valentine
Annette Bening – Minhas Mães e meu Pai

Melhor ator coadjuvante

Christian Bale, pelo tanto que se doou para o personagem deve levar esse prêmio. Mas Jeremy Renner também dá um show em Atração Perigosa. Esse eu empato com os dois. O que levar eu me contento.

Christian Bale – O Vencedor
Jeremy Renner – Atração Perigosa
Geoffrey Rush – O Discurso do Rei
John Hawkes – Inverno da Alma
Mark Ruffalo – Minhas Mães e meu Pai

Melhor atriz coadjuvante

Hailee Steinfeld, por favor.

Amy Adams – O Vencedor
Helena Bonham Carter – O Discurso do Rei
Jacki Weaver – Animal Kingdom
Melissa Leo – O Vencedor
Hailee Steinfeld – Bravura Indômita

Melhor longa animado

Como esses dois podem concorrer com um longa animado que também está no páreo para Melhor Filme? Toy Story 3 deve levar e é o que eu gostaria também.

Como Treinar o Seu Dragão
O Mágico
Toy Story 3

Melhor filme em lingua estrangeira

Biutiful deve levar. Também torço por ele.

Biutiful
Fora-da-Lei
Dente Canino
Incendies
Em um Mundo Melhor

Melhor direção de arte

Guy Hendrix Dias fez um ótimo trabalho em A Origem, mas, como a Academia gosta de pompa, O Discurso do Rei deve levar.

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
A Origem
O Discurso do Rei
Bravura Indômita

Melhor fotografia

Jeff Cronenweth fez um trabalho digno de seu pai, Jordan, em A Rede Social. Wally Pfister continua o a parceria com Christopher Nolan em A Origem. Talvez um deles leve (é, esse eu fico entre dois). Mas, Roger Deakins, de Bravura Indômita, merece muito esse prêmio.

Cisne Negro
A Origem
O Discurso do Rei
A Rede Social
Bravura Indômita

Melhor figurino

Discurso do Rei deve levar, e se acontecer, será muito justo.

Alice no País das Maravilhas
I am Love
O Discurso do Rei
The Tempest
Bravura Indômita

Melhor edição

127 Horas tem uma edição digna de videoclipes e ajuda a manter o filme num ritmo constante. Mas, numa linha mais clássica, Cisne Negro possui uma edição belíssima, principalmente nos momentos finais. Torço pra este último, mas minha aposta é o primeiro.

Cisne Negro
O Vencedor
O Discurso do Rei
A Rede Social
127 Horas

Melhor trilha sonora

Hans Zimmer criou mais que uma trilha em A Origem. Ele deu alma ao filme. Os outros indicados só fizeram o feijão com arroz. Talvez o mais inovador tenha sido Trent Reznor em A Rede Social, mas mesmo assim, não bate a utilização impecável da música no filme de Chris Nolan.

Alexandre Desplat – O Discurso do Rei
John Powell – Como Treinar o seu Dragão
A.R. Rahman – 127 Horas
Trent Reznor e Atticus Ross – A Rede Social
Hans Zimmer – A Origem

Melhor canção original

If I Rise faz a linha que geralmente leva a estatueta, a de pop chato. Minha torcida fica para We Belong Together de Toy Story 3.

“Coming Home” – Country Strong
“I See the Light” – Enrolados
“If I Rise” – 127 Horas
We Belong Together – Toy Story 3

Melhor Maquiagem

O Lobisomem deveria levar pela criatura ser mais baseada em maquiagem do que em efeitos visuais. É a minha aposta e torcida também.

O Lobisomem
Caminho da Liberdade
Minha Versão para o Amor

Melhor Edição de som

Não tem nem o que dizer, A Origem leva esse.

A Origem
Toy Story 3
Tron – O Legado
Bravura Indômita
Incontrolável

Melhor Mixagem de som

Torço pra Origem, mas A Rede Social é um concorrente forte.

A Origem
Bravura Indômita
O Discurso do Rei
A Rede Social
Salt

Melhor Efeitos especiais

O melhor efeito especial é aquele que você nem percebe que está lá. Nolan faz isso com seus efeitos tão inerentes à história que parecem orgânicos e não digitais. A Origem de novo é minha torcida, porém, Homem de Ferro 2 faz a linha exagerada que costuma impressionar os velhinhos da Academia.

Alice no País das Maravilhas
Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte I
Além da Vida
A Origem
Homem de Ferro 2

Melhor Roteiro adaptado

A Rede Social deve levar, mas Bravura Indômita adapta tão bem o humor ácido do livro original que sou obrigado a ter esse como favorito.

A Rede Social
127 Horas
Toy Story 3
Bravura Indômita
Inverno da Alma

Melhor Roteiro original

Meu favorito é A Origem. Mas pela idéia e por ser tão voltado pra superação, a Academia deve premiar o Discurso do Rei.

Minhas Mães e meu Pai
A Origem
O Discurso do Rei
O Vencedor
Another Year

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Crítica: O Besouro Verde

Em 1966, a TV norte-americana via surgir o seriado que se tornaria um fenômeno cultural nos anos seguintes. Produzido por William Dozier, Batman, em uma interpretação “camp”, durou 3 temporadas e ajudou a marcar a imagem do Homem-Morcego como galhofa. Aproveitando o sucesso, Dozier resolveu investir em outro vigilante das ruas. Nascia o seriado do Besouro Verde. Apesar de compartilhar do mesmo produtor, o Besouro era feito de forma mais séria, com histórias envolvendo crimes como assassinato e corrupção, ao invés dos planos malucos do Coringa ou do Pinguim em seu programa-irmão. Durou apenas 1 ano, mas serviu para apresentar aos Estados Unidos um jovem ator chinês, que interpretava Kato, o ajudante do herói: Bruce Lee.

Um pulo no tempo e o ano é 2008. Depois de uma bem-sucedida volta aos cinemas, Batman é finalmente o herói sério e sombrio que sempre foi nos quadrinhos. Com O Cavaleiro das Trevas, o personagem ganha uma roupagem madura e muito além do que a maioria das adaptações de HQs conseguiram ser em várias tentativas. Aproveitando o "hype" gerado por heróis sem superpoderes, em 2009, a Sony resolve trazer de voltar às telonas o Besouro, desengavetando um projeto que datava da metade dos anos 90. O resultado é o filme dirigido pelo francês Michel Gondry, com Seth Rogen no papel-título, que estreou nesta sexta-feira em todo país. Rogen, como todos sabem é um roteirista e ator de comédias. Gondry era um diretor de videoclipes com um forte apelo visual e que na sétima arte entregou bons filmes como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e Rebobine, Por Favor. Obviamente o direcionamento de um filme do Besouro Verde com uma dupla assim no comando seria bem diferente do teor realista do Batman.

O personagem foi criado na década de 30 como um típico herói pulp na linha d'O Sombra. Teve seu programa de rádio, seriados de matinée e histórias em quadrinhos o suficiente pra não ser de segunda categoria, mas caiu no esquecimento depois da sua breve passagem pela TV. Um filme tem sido cogitado há anos e o mais próximo de ser rodado foi na época em que o cineasta e roteirista de quadrinhos Kevin Smith escreveu e quase dirigiu sua versão do Besouro. Seu roteiro não foi totalmente esquecido e vários elementos foram reaproveitados por Rogen, co-autor do novo texto ao lado de Evan Goldberg.

Na história, Britt Reid é o herdeiro de um império da mídia, mas só se dá conta disso, pois passava seu tempo livre fazendo o que todo playboy milionário faz, quando o pai, James (Tom Wilkinson) morre. Ao perceber como sua cidade está sendo vencida pelo crime, resolve sair por aí batendo em bandidos ao lado do ex-mecânico e mordomo de seu pai, Kato (Jay Chou). É o plot padrão de praticamente todo vigilante, mas ao contrário do Batman, o Besouro Verde propositalmente se apresenta como criminoso. O plano até faz sentido. Se os caras maus o entenderem como herói, poderão usar qualquer inocente como isca para matá-lo. Mas se eles o virem como um igual, não terão o que usar contra ele.

Assim como Reid decide ir contra a maré, o filme de Gondry também vai. Enquanto os estúdios tem se esforçado para fazer das adaptações de quadrinhos, profundos estudos de personagem, o cineasta francês comanda uma comédia de ação e que, com a ajuda do texto e do timing de Rogen para o humor, funciona melhor do que algumas produções que tendem a se levar a sério demais.
O filme tem falhas, mas é uma diversão descompromissada e não faz feio nas cenas mais movimentadas. Além disso, conta ainda com a caricata interpretação de Christoph Waltz como o vilão Chudnofsky que tenta ser ameaçador o tempo todo. Embora mal aproveitado, levando em conta o talento do ator, pros fãs do General Landa de Bastardos Inglórios é um deleite. Para os do Besouro Verde, se é que ainda sobrou algum, ficam várias homenagens ao seriado sessentista, e até mesmo a Bruce Lee, feita inclusive de forma sutil e de muito bom gosto.

Rogen e Chou formam uma química muito interessante, principalmente porque o oriental é o único que parece realmente saber o que está fazendo. Em um mundo perfeito, Kato seria o herói e o Besouro, o ajudante. Mas, como Reid é egoísta, em sua mente infantil, ele é o centro das atenções. É nessa abordagem de situações nonsense e baseada na premissa de que os opostos se atraem (sem nenhum tipo de duplo sentido ai) que a comédia está centrada.
Besouro Verde vem em cópias 3D apesar do efeito não se fazer necessário. Contudo, é muito interessante nas sequências da "Kato Vision" usada quando o herói desfere seus golpes precisos e velozes.

Embora não tenha um roteiro que valorize os personagens coadjuvantes (Edward James Olmos é um bom exemplo disso), o longa de Michel Gondry agrada a quem não pensa que todos os filmes de heróis devam ser obras-primas ou sérios demais. Um pouco de diversão nunca fez mal a ninguém e até ajudou o Batman a ser lembrado como "cult".

Curiosidades

* O Besouro Verde foi criado em 1936 por George W. Trendle and Fran Striker como um personagem de para um seriado de rádio. Trendle também criou o Cavaleiro Solitário, outro popuplar herói pulp, mas situado no velho oeste. Os dois personagens, no entanto, compartilham mais do que o criador. O Besouro é descendente do Cavaleiro Solitário, tendo inclusive o mesmo sobrenome. A identidado do caubói, que no Brasil foi erroneamente chamado de Zorro, gerando uma confusão gigantesca durante anos, é John Reid.

* São várias as referências ao seriado dos anos 60 nesse novo filme. A mais notável porém, está no final. A forma que Reid encontra pra mascarar o ferimento de bala após a batalha contra Sanguenofsky (por mais inverossímel que seja) é praticamente idêntica à situação apresentada em um dos episódios da série, The Bad Bet.

*Michel Gondry ficou famoso nos 90 como diretor de alguns dos mais inovadores videoclipes daquela década. E em uma das cenas do Besouro Verde, ele faz uma autoreferência elevando à décima potência uma trucagem de câmera e edição usada no vídeo da música Sugar Water, do grupo Cibo Matto. Assista ao clipe aqui.

*Atualmente a editora norte-americana Dynamyte Comics publica alguns títulos baseados no Besouro. O mais notável é o que adapta do roteiro de Kevin Smith para os quadrinhos. E pros mais puristas, Green Hornet - Year One mostra as aventuras do herói nos anos 30 em Chicago.

*A primeira vez que Britt e Kato saem juntos usando máscaras improvisadas é uma homenagem ao visual dos dois nos seriados pra cinema dos anos 40.
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Crítica: 127 Horas

ATENÇÃO: O texto abaixo contém pontos cruciais da trama. Se você não conhece a história de Aron Ralston, assista ao filme antes. Ou continue lendo caso não se importe em saber o final da história!

O que faz um filme se tornar elegível para o Oscar é o seu conjunto. Não adianta um bom roteiro, sem uma direção à altura. Também como não adianta nada disso sem um bom editor. E ainda, se tudo isso estivesse redondinho, a falta de uma trilha sonora arruinaria qualquer projeto. 127 Horas, estreia desta sexta no Brasil, é candidato ao prêmio da Academia em 2011 justamente por tudo isso. O inglês Danny Boyle mostra mais uma vez, com grande competência, porque é um dos diretores mais venerados atualmente. Depois de se Oscarizar com Quem Quer Ser um Milionário, conta, através de sua lente frenética, uma história real.

O filme narra a aventura de Aron Ralston (James Franco), alpinista que em 2003 ficou preso em um canyon quando uma rocha esmagou seu braço contra uma das paredes do lugar. Ralston passou 127 horas ali, até perceber que para sobreviver teria que amputá-lo. A sequência inicial apresenta o protagonista através de tela dividida em 3, flashs rápidos e o mais importante: prenúncios de que algo está pra dar errado. Ele esquece seu canivete suíço na viagem, passa a saída que deveria pegar pra chegar ao local e quase se arrebenta em sua bicicleta atravessando o deserto que leva ao canyon Blue John. Como um último alerta, desvia do caminho para ajudar duas garotas que se perderam por ali. Quando finalmente Aron chega a seu objetivo, o acidente acontece, e o filme, de certa forma realmente começa: note como o nome do longa só aparece exatamente depois disso.

Durante o período que fica isolado, o alpinista, por falta de água, começa a ter delírios que misturam lembranças de chances perdidas, infância e atos egoístas como deixar de atender os telefonemas da irmã e da mãe. A partir daqui, Boyle aplica sua técnica de videoclipe para fazer o espectador "sentir" a agonia de seu herói. Cortes rápidos, câmera em locais nem um pouco convencionais e a trilha de A. R. Rahman trazem dinâmica e ritmo a um filme que se baseia inteiramente na presença de tela de James Franco. E o ator tem seus bons momentos em frente à duas câmeras, a do diretor e a própria. Sim, por que Ralston pode ter se esquecido do canivete suíço, mas sua vaidade não deixou de lado uma câmera de video e uma fotográfica.

Um ponto forte do longa são as referências de Boyle nos delírios de Aron. São quase que exclusivamente televisivas. Os comerciais de refrigerante quando o protagonista se lembra da garrafa de Gatorade que ficou em seu carro, as introduções de jornais matutinos quando o dia amanhece. É o filme de superação da geração "babá-eletrônica".

O diretor faz um trabalho sem igual, aliado a sua equipe, ao criar uma história de sobrevivência que praticamente emula no espectador toda a claustrofobia e incômodo que o alpinista sentiu naqueles dias. Seu clímax é tão forte que cada golpe da faca vagabunda e falsificada que Ralston usa para decepar seu braço é uma contorcida de quem está assistindo. E não há como não se sentir aliviado, mas sem voz para clamar por socorro, quando finalmente ele consegue encontrar alguém para lhe ajudar. São 90 minutos de pura técnica misturada com a emoção de quem começa a ter noção de que talvez não seja tão esperto assim. Afinal, sair pra uma aventura dessas e não dizer a ninguém pra onde foi não é uma atitude das mais inteligentes.

Se 127 Horas merece ou não o Oscar, essa não é a discussão. O que importa é que Boyle, ganhando ou não a estatueta, colocou em seu curriculo mais uma obra digna da importância cinematográfica de seus outros trabalhos. Porque cinema se faz assim mesmo com união de departamentos. Assim como a lição de Ralston, fazer um bom filme é uma jornada onde o ego não pode tomar conta.

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Cenas Memoráveis - Kill Bill Vol. 2

As melhores cenas do cinema são as mais simples. E, nada mais simples do que um diálogo. Ou, no caso abaixo, um monólogo. Nada de truque de câmera, efeitos especiais. É no texto bem escrito de Tarantino que Kill Bill Volume 2 tem seu melhor momento.

Bill, interpretado por David Carradine, explica à protagonista a mitologia do Superman. Como Clark Kent é o disfarce e Superman é o personagem real, ao contrário de todos os outros super-heróis. Tarantino escreveu isso tendo em mente o Super pré-Crise nas Infinitas Terras, a saga da DC que atualizou seu panteão de heróis nos anos 80. A origem atual do Azulão não permite essa análise que Tarantino faz, já que John Byrne transformou Clark Kent na pessoa e Superman no disfarce em sua minissérie Man of Steel, escrita logo após o final da Crise e que serviu de base pro seriado Lois & Clark nos anos 90.

Mas isso não invalida a genialidade do diretor/roteirista. A forma como ele vê o Homem de Aço continua sendo memorável. Confira (sem legendas, sorry...)


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Crítica: Bravura Indômita (2011)

Refilmagens estão sempre surgindo, para desespero de cinéfilos saudosistas e alegria dos estúdios, utilizando uma marca já consagrada para atrair novos públicos, que provavelmente não assistiriam a obra original. Na maioria das vezes a releitura de clássicos não agrada e por vários motivos. Pode ser por cuidado demais em ser fiel e acabar criando uma obra idêntica (e, portanto, sem sentido em existir), ou por casos opostos, na vontade de um diretor ou roteirista em tentar trazer algo novo, acabar deturpando a obra. Por sorte, Bravura Indômita, que estreia nesta sexta nos cinemas brasileiros, não é uma refilmagem, embora seja apresentada como uma. O que os irmãos Joel e Ethan Coen fizeram foi adaptar um livro que já havia sido filmado em 1969 com John Wayne no papel do delegado durão Rooster Cogburn. E, embora o primeiro filme tenha dado o Oscar de melhor ator ao lendário herói do gênero Western, a versão dos Coen consegue o impensável: ser infinitamente melhor.

O novo Bravura Indômita já ganha em fidelidade à obra original. O roteiro, também dos irmãos, chega a usar diálogos idênticos ao livro de Charles Portis. A verdade é que o texto literário é muito mais a linha dos diretores do que era do realizador do longa dos anos 60. As sutilezas e o humor negro já são características dos Coen e eles viram na obra uma boa chance de realizar seu primeiro filme autenticamente de gênero sem perderem suas identidades no percurso. Outra grande vantagem desta nova produção é o poder de síntese da narrativa. Enquanto no original, somos apresentados à familia de Mattie Ross até o ato que culmina no assassinato de seu pai em uma longa sequência, agora temos uma narração de pouco mais de um minuto que situa o espectador sem parecer didática e já da pistas da personalidade da garota, interpretada com enorme competência pela jovem Hailee Steinfeld. Vale ressaltar que a personagem convence muito mais na direção dos Coen.

No primeiro ato do filme, até o momento em que Mattie parte com Cogburn (Jeff Bridges) e LaBeauf (Matt Damon) para a caça do vilão que matou seu pai, a história se desenrola de forma bem parecida à produção original. A partir deste ponto, os Coen seguem com uma abordagem mais própria transformando a caçada numa história muito mais humana. Bridges mostra novamente como a idade lhe fez bem e entrega um Cogburn que em momento algum tenta imitar John Wayne. Damon também não faz feio e há momentos em que o espectador até sente pena pelas constantes provocações do velho delegado, coisa que no original não acontecia. O personagem LaBeauf, no filme com Wayne é uma ponte para ressaltar Cogburn como um herói decadente. Aqui ele é mostrado de forma muito mais real e serve como ponte para revelar Cogburn como um sujeito que poucas pessoas poderiam se relacionar.

Pra ajudar a contar esse conto do velho oeste, Bravura Indômita tem a bela fotografia de Roger Deakins que compõe quadros magníficos na tela, além da trilha de Carter Burwell, colaborador de longa data dos Coen, aqui fugindo do convencional e criando uma partitura minimalista ao invés de tentar copiar o estilo de Ennio Morricone, prática clichê em westerns contemporâneos.

A jornada percorrida por Mattie e Cogburn pode as vezes lembrar um road movie. E até cumpre o papel que se espera deste tipo de filme. O de descoberta, amadurecimento e desapego a assuntos passados. Mas, Bravura Indômita é, acima de tudo, um filme dos Coen. Um Western arrojado, com um texto muito bem escrito e narrativa fluida. Muito além do que qualquer refilmagem, releitura ou coisas do gênero. Os cinéfilos saudosistas podem respirar aliviados.

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Crítica: Cisne Negro

Para assistir Cisne Negro é preciso estar ciente de uma coisa. O filme, dirigido por Darren Aronofsky, é, de sua cena inicial até o fim dos créditos, uma jornada pela mente da bailarina vivida por Natalie Portman. Nina (Natalie Portman) nos é apresentada aos poucos, com sua obsessão pela perfeição de sua arte, seus desejos reprimidos e sua perturbada rotina. De dia, nos cansativos ensaios, e a noite, com sua mãe, que a trata como uma eterna garotinha. A mente da protagonista não é, definitivamente, um lugar confortável para se estar.

Usando como espinha dorsal para a história, o balé O Lago dos Cisnes, Aronofsky cria mais uma obra perturbadora em sua análise psicológica, com melhorias em algumas de suas marcas registradas. A edição do filme é fundamental para esse envolvimento do espectador. Assim como a trilha sonora, composta por Clint Mansell a partir de temas do citado balé. Como em Pi e Réquiem Para um Sonho, o diretor parte para uma análise de personagem que ecoa Dostoievsky e Kafka. No meio cinematográfico é fácil citar Cronemberg.

Nina, em sua busca pela perfeição, precisa descobrir dentro de si o Cisne Negro do título, no balé a gêmea malvada do Cisne Branco. Funciona como metáfora. A bailarina precisa interpretar os dois papéis mas tem uma enorme dificuldade em encontrar o tom correto para seu lado sedutor e malvado. Como já citado, sua mãe (Barbara Hershey) a trata como criança, embora a personagem tenha 28 anos. Imagine a pressão de interpretar um dos personagens mais importantes do balé e ainda aguentar as implicâncias da mãe. Como Aronofsky conta sua história do ponto de vista de Portman, a mãe é sempre retratada como megera. Porém, conforme o roteiro vai permitindo aos poucos, percebe-se uma tentativa de proteção. Ela sabe que a filha sofre de algum distúrbio, só não identifica o que é como também não se vê como um dos principais motivos da garota ser tão problemática.

A bailarina rival de Nina, vivida por Mila Kunis, é tudo que a protagonista precisa ser para se sair bem aos olhos do diretor de sua companhia, o francês Vincent Cassel. Porém, a personagem de Portman, em seu julgamento turvo, a vê como um empecilho, quando, como Cassel diz em determinado momento, a única pessoa no caminho é ela mesma, a própria Nina. Ela foi ensinada a ser doce, motivada a ser delicada. E agora, sua personalidade está confusa.

Aronofsky cria um drama com momentos de suspense, que satisfaz em sua proposta. A interpretação de Portman é digna, principalmente nos lampejos de sua outra metade, a que ela nunca se deixa revelar. Kunis faz sua personagem de duas maneiras: como ela é, e como Nina a vê. E se sai bem em ambas. Tecnicamente o filme é impecável. A já citada edição e a fotografia de Matthew Libatique ditam o ritmo da produção, que não por acaso ja é considerada como um dos melhores filmes do final de 2010.

É gratificante ver o cinema em boa forma, como em Cisne Negro. Aronofsky pode não procurar a perfeição à exaustão de sua protagonista, mas aos poucos se coloca lado a lado dos grandes nomes da sétima arte com sua filmografia autoral e incisiva, sempre com análises que incomodam em sua natureza, mas que não falham ao mostrar o que a mente, embora de grande poder, é também de grande fragilidade.

Continua...
 
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