Crítica: Sucker Punch - Mundo Surreal

O trailer de Watchmen, quando lançado, serviu pra duas coisas. Primeiro para mostrar aos fãs da obra original que, da adaptação, poderiam esperar algo relativamente fiel. O outro propósito foi o de vender a imagem de seu diretor, Zack Snyder, como a de um cineasta visionário. O tiro saiu pela culatra já que nem a crítica especializada e muito menos os cinéfilos conseguiram aceitar essa "imposição" da Warner de que seu mais jovem contratado pudesse ser um gênio da sétima arte.

Como seus filmes anteriores eram adaptações de livros, quadrinhos e uma refilmagem, faltava algo saído de sua mente "visionária" para, ou mostrar ao mundo seu talento, ou simplesmente confirmar as suspeitas que, apesar de competente, Snyder seria no máximo, acima da média. Sucker Punch - Mundo Surreal chegou aos cinemas no último fim de semana para, pelo menos, juntar um pouco das duas coisas.

A trama gira em torno de Babydoll (Emily Browning), garota que após perder a mãe e passar por abusos do padrasto, acaba internada num sanatório e é marcada para sofrer uma lobotomia. Ela tem cinco dias para o procedimento e resolve fugir após convencer mais quatro garotas (vividas por Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung), também internadas, que juntas podem escapar dali. O filme todo é sobre fuga. Seja das instalações do asilo, como também das missões que Babydoll cria em sua mente. Mas, acima de tudo, Snyder e seu parceiro de roteiro, Steve Shibuya, fazem um interessante ensaio sobre o escapismo, a fuga da realidade para a superação das mazelas do mundo. Para isso, o diretor coloca suas personagens femininas, maltratadas durante suas vidas, para enfrentar os monstros responsáveis por anos de abuso. Tudo de forma figurativa, com as incríveis cenas de ação que ocorrem na imaginação da protagonista.

Durante seus momentos de fantasia, Babydoll cria mundos fantásticos baseados em misturas de ficção-científica futurista com cenários medievais, nazistas e tecnologia steampunk, animação japonesa, videogames, RPG, quadrinhos e tudo mais que for considerado cultura pop. Tudo embalado por uma trilha repleta de covers com arranjos que encaixam perfeitamente nessa salada. Além de servirem seu propósito de metáforas visuais, as referências mostram como Snyder está confortável em digerir tudo que o influenciou até aqui. Não é a toa que até as músicas são releituras de clássicos pop como Sweet Dreams, Search and Destroy e We Will Rock You.

Um diretor devorado por imagens

Ao contrário da escrita que exige tempo de leitura e decifração, permitindo a escolha entre entrar ou não em seu mundo, a imagem convida a entrarmos imediatamente e não cobra o preço da decifração. A imagem não exige uma senha de entrada, pois o seu tributo é a sedução e o envolvimento. A imagem nos absorve, nos chama permanentemente a sermos devorados por ela (...).

- Prof. Dr. Norval Baitello Jr. As Imagens que Nos Devoram - Antropofagia e Iconofagia.


Com efeitos especiais de grande qualidade e uma direção de arte muito competente em criar tantos mundos (mesmo que baseados em imagens recorrentes à diversos gêneros e mídias), Sucker Punch sai da mesmice de filmes de ação e aventura, constantemente presos à fórmulas já consagradas. A grande sacada de Snyder foi a de criar uma narrativa diferente (que se não é original, pelo menos é incomum) para inserir elementos de blockbuster em uma trama ligeiramente mais inteligente à de filmes dirigidos para a grande massa.

Porém, em meio a tudo isso, há um problema. Como citado na primeira parte do texto, Snyder parece ter a obrigação de provar a capacidade de criar uma obra própria e se perde quando leva sua história a sério demais. Talvez por excesso de zelo com seu primeiro trabalho como autor, ou falta de confiança de que um filme baseado fortemente no visual pudesse agradar seu público, Snyder tenta dar a história uma profundidade desnecessária. A própria existência de seu longa já justificaria sua visão do escapismo. Ninguém, ou pelo menos a maioria, culparia o diretor por devorar imagens e as reproduzir a seu modo, como faz em Sucker Punch com muita habilidade. A grandiosidade do visual faz o espectador aceitar tudo de forma natural. Como a citação acima diz, "a imagem convida a entrarmos imediatamente e não cobra o preço da decifração."

Soa estranho portanto, depois de bagunçar um pouco o último ato, o discurso da protagonista, que sugere ao espectador um esforço de criatividade para juntar os pedaços e tirar suas conclusões. Estranho por ser contraditório, já que ao mesmo tempo que instiga o pensamento, subestima a audiência. E o pior, ao pedir para seu público pensar sobre a obra, Snyder superestima a si, numa auto-afirmação de que seu longa foi feito para a discussão. Ao fazer isso o diretor tenta empurrar para o público mais do que o prato principal poderia oferecer, e pesa um pouco na hora da digestão. Não se engane, como Snyder, você será devorado pelas imagens e também as devorará. Mas ter que aguentar filosofia barata e lição de moral pra sobremesa pode acabar causando azia em muita gente.
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Dissecação de um filme - Coração Satânico (Angel Heart, 1987)

O texto abaixo contém spoilers pesados de Coração Satânico e não é recomendável à quem não conhece o filme e pretende assistí-lo.



Se você não viu Coração Satânico, veja antes de ler o post. Afinal, nenhum filme se resume a uma análise fria de cenas.


Com Chinatown, de Roman Polanski, criou-se uma vertente do filme policial. O neo-noir se refere aos longas com elementos dos thrillers dos anos 30 e 40, mas produzidos após os anos 70 (embora alguns críticos considerem algumas produções sessentistas como neo-noir, Chinatown é, sem dúvida, o maior representante). E na década de 80, houve algumas tentativas bem sucedidas de se emular as características do cinema noir, aquele clássico que você deve conhecer com Humpfrey Bogart como grande ícone. Blade Runner, O Ano do Dragão, Perigo na Noite, entre outros, foram produzidos com muita competência em mostrar o (anti)herói relutante, as femme fatales, as tramas de intriga e os personagens de caráter duvidoso.


Em 1987, o diretor Alan Parker se apossou do estilo (porque os teóricos não consideram o noir como um gênero) para contar uma história de terror e se beneficiou imensamente disso. Coração Satânico é uma adaptação do livro Falling Angel de William Hjortsberg, porém, além da trama principal, o longa compartilha pouco da narrativa literária. Isso porque Parker, como Ridley Scott em Blade Runner, preferiu por uma linguagem mais pessoal, carregada de simbolismos para ajudar no andamento da história. Por isso, Coração Satânico merece uma análise da utilização de símbolos e de sua atmosfera opressiva e decadente. O cineasta, com seu diretor de fotografia, Michael Seresin. e seu diretor de arte, Armin Ganz, conseguiu criar uma obra fortemente baseada no visual mas que não deixa de lado o roteiro, carregado de ironias e subtextos.


Coração Satânico começa mostrando um sombrio beco da Nova York dos anos 50 na escuridão da noite. A neve cobre a calçada e a silhueta de um homem caminha enquanto os créditos iniciais são revelados. Corta para um gato, em uma sacada, e logo depois para o beco novamente, quando um cachorro surge em cena e ameaça o felino lá de baixo. Uma bela caracterização sobre do que o filme trata. Uma caçada, como a trama sugere em seu início, mas também sobre um predador que mantém sua presa acuada, mesmo ela estando em terreno mais elevado, onde aparentemente a ameaça não chegaria. O cachorro desiste de sua perseguição e continua sua caminhada apenas para encontrar um corpo de um homem que teve seu pescoço cortado. Seria a misteriosa figura de minutos atrás, o assassino?





Na sequência seguinte, o filme apresenta seu protagonista, Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, em uma atuação memorável. Angel é um detetive decadente chamado por uma firma de advogados para atender um novo cliente. Um encontro é marcado entre eles. No caminho, uma cena interessante mostra que Harry, apesar de sua profissão, tem boa índole, como seu nome sugere. Enquanto caminha até seu destino, o vento tira o chapéu de uma senhora e Angel imediatamente o pega do chão para entregá-lo a sua dona.







Ao entrar no local do encontro, o espectador é gradualmente apresentado ao cenário, quando o som, aos poucos, revela um culto religioso acontecendo ali. É uma igreja e Harry chega justamente no momento em que o pastor diz algo como "se você acredita em Deus, abra sua carteira". É uma das ironias do texto, que ficará bem clara quando a verdadeira identidade do empregador do detetive for revelada. Harry observa tudo do alto, como o gato da primeira cena do filme e também como o "anjo" de seu sobrenome.









Em uma sala em algum lugar do prédio, Harry se encontra, finalmente, com seu misterioso cliente, Louis Cyphre, vivido por Robert De Niro. É bom ressaltar como os nomes dos personagens revelam muito sobre suas naturezas. Infelizmente, Harry não foi tão esperto pra fazer a ligação e, de certa forma, na posição dele, ninguém faria. Cyphre revela o propósito desse encontro. Ele precisa que o detetive encontre Johnny Favourite (novamente, o nome sendo usado para dar pistas sobre um personagem). Favourite era um cantor que tinha um contrato com Cyphre e que desapareceu depois da Segunda Guerra, deixando seu acordo para trás. É bom prestar atenção à posição de De Niro em cena. Ele está sentado em uma cadeira levemente elevada, como se todos que fossem visitá-lo estivessem abaixo dele. Sua postura é de um homem que espera reverência das pessoas que o veem naquela cadeira, como um rei em seu trono.



Harry começa sua investigação por um asilo onde Favourite estaria internado com psicose pós-guerra. Essa sequência mostra o protagonista tirando uma carteira de sua mala e escolhendo, entre várias identidades, qual usaria para tentar descobrir alguma coisa sobre seu investigado. Essa cena é interessante por revelar que um dos temas do filme é justamente a busca por identidade, ainda que o protagonista não se dê conta disso até o último ato da trama.



Depois de descobrir que Favourite não se encontra naquele lugar há 12 anos, Harry decide ir atrás do médico que liberou o paciente do Asilo e segue até um bar para pesquisar na lista telefônica. Nesta cena Harry é mostrado atrás de uma janela com um vidro amarelo, na altura de sua cabeça formando uma espécie de auréola, daquelas usadas em pinturas de figuras santas.





Harry vai até a casa do médico e descobre que este é viciado em ópio. Usa isso para tirar algumas informações e como percebe que o homem está quase desmaiando por querer uma dose de sua droga, o tranca em seu quarto, revelando aí um signo que perseguirá o personagem por toda sua jornada: um ventilador. Quando Harry entra com o médico no quarto, o ventilador gira para um lado, mas conforme o protagonista coloca seu interrogado na cama, o ventilador para e começa a girar para o outro lado. Isso vai acontecer várias vezes durante o filme e sempre indicará a morte do coadjuvante em cena, como Harry descobre momentos depois, ao voltar para o quarto e encontrar o médico com um tiro no olho.



Antes, porém, o detetive sai para caminhar e escuta sussurros chamando por seu nome. O que chama atenção nesta cena é a iluminação que privilegia apenas um lado do rosto do personagem, deixando o outro completamente escurecido por uma sombra. É um recurso muito utilizado para revelar dualidades e que funciona muito bem por colocar essa dúvida na cabeça tanto do espectador quanto do próprio protagonista.



Depois do suposto suicídio do médico, Harry se encontra com Cyphre novamente, pois começa a ter dúvidas quanto ao trabalho, já que poderia ser facilmente incriminado por uma morte em circunstâncias misteriosas. Cyphre convence o detetive a continuar sua investigação enquanto descasca um ovo cozido. Como o personagem de De Niro explica, pouco antes de morder o alimento, o ovo é, em algumas culturas, uma representação da alma. Mais uma pista sobre a natureza de Cyphre que Angel deixa escapar, mais por seu ceticismo do que por distração.





Depois de investigar mais um pouco, Harry descobre que se Favourite estiver vivo, talvez se encontre em Lousiana e segue rumo ao sul dos Estados Unidos. É bom lembrar que ao seguir rumo ao sul, o detetive começa sua descida ao inferno como sugere o título do livro que o filme se baseia.


Uma das pistas sobre o paradeiro de Favourite é Margeret Krusemark, antiga namorada do cantor, que, dizem, lida com magia negra. Aqui, outro símbolo é usado como pista para que a trama seja decifrada. O colar de Margaret tem um pingente com um pentagrama invertido, ícone muito usado no Satanismo.



Angel continua seguindo pistas até encontrar a jovem Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet). Mais uma vez o nome exerce função para a história. A garota mais tarde é revelada como sacerdotisa de voodoo e filha de Favourite. Logo depois, Epiphany e Harry protagonizam uma tórrida cena de sexo em que o ritmo é ditado por goteiras no quarto onde o detetive está hospedado. Quanto mais íntima se torna a relação, mais molhada a cena se revela. Sem precisa entrar em detalhes sobre o significado disso, este é o momento chave em que Harry Angel finalmente concretiza sua descida ao inferno. Ao ir para a cama com Epiphany, surge um comportamento selvagem que não havia ainda se manifestado. Neste momento, a água se torna sangue e Harry a ataca com uma violência assustadora.



Quando percebe que estava quase sufocando a moça, Angel se levanta e esmurra o espelho do quarto, que reflete sua imagem em pedaços, revelando como o personagem se sente, e, como é mostrado mais pra frente na trama, como é a sua personalidade.



No final, somos apresentados ao ponto de virada: Harry e Favourite são a mesma pessoa. O cantor havia feito um pacto com o demônio, Louis Cyphre (Lúcifer), vendendo sua alma. Mas, como se achava esperto demais, descobriu uma forma de enganar o "maior enganador de todos" em um ritual para devorar a alma de outra pessoa, neste caso o verdadeiro Angel. Favourite então é convocado para a guerra mas volta desfigurado e com amnésia, assumindo assim, as memórias de sua vítima acreditando realmente ser Harry. Todas as mortes que acontecem foram efetuadas pelo detetive quando a mente de Favourite despertava. Por isso os ventiladores mudavam de direção, representando a outra personalidade, controlada por Lúcifer, comentendo seus crimes. Como dito acima, o momento do sexo é a derradeira descida de Angel ao inferno, pois comete um deplorável ato de incesto, mesmo sem saber.


Há, além disso, outro elemento surpresa, cuja natureza não será revelada neste texto (quem sabe assim, mesmo depois de já conhecer toda a história, quem não tiver assistido ao filme, resolva o fazer). Os créditos finais, são intercalados com Angel/Favourite, descendo por um interminável elevador, representando sua chegada ao Reino de Lúcifer.





Coração Satânico, como já dito, é dotade de forte apelo visual. E é justamente na riqueza da utilização de símbolos e imagens emblemáticas que a película de Alan Parker encontra força para contar uma história relativamente simples (sem ser vazia). Se fosse apenas um filme de terror, sem todas as referências, não se tornaria tão memorável. Assim como se fosse simplesmente um filme visual, sem um roteiro decente, também não mereceria destaque. E a interpretação de Mickey Rourke também ajuda. É interessante reparar em como seu semblante vai mudando durante o filme. Do detetive decadente mas sempre fazendo piadas, a um homem sem identidade, e que deve encarar as consequências de atos feitos em uma "outra" vida, por assim dizer. Assim, o longa, além de ser satisfatório como exemplo do cinema neo-noir, com suas nuances duvidosas herdadas de Chinatown, também não faz feio como terror, na atmosfera pesada e na sensação de perigo iminente.

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Trilhas Marcantes: Vertigo - Um Corpo que Cai (1958)

Uma das obras mais citadas da filmografia de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai é um suspense sobre medo e obsessão, que coloca o espectador dentro de um jogo psicológico construído pela direção certeira do cineasta.

E, para complementar o filme e criar a atmosfera necessária para o longa atingir seu objetivo, a trilha sonora composta por Bernard Herrmann cai como uma luva. Colaborador habitual de Hitchcock, o compositor é responsável por um dos temas mais reconhecíveis da história do cinema, o de Psicose. Em Um Corpo que Cai, Herrmann criou uma trilha construída em círculos e espirais, exatamente como o Hithcock representa o medo de altura do personagem vivido por James Stewart.

Se o diretor, mestre do suspense, sempre estava rodeado de excelentes profissionais, Bernard Herrmann era um deles. As colaborações dos dois criaram momentos únicos na sétima arte, graças a capacidade do compositor de entender exatamente cada cena que Hitchcock idealizava para seus filmes. Confira abaixo o tema principal de Um Corpo que Cai, recentemente usado por Lady Gaga em seu clipe Born This Way (as referências da garota vão longe!).


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Crítica: Jogo de Poder

Durou pouco a desculpa da Casa Branca pra iniciar uma guerra contra o Iraque, logo depois do ataque de 11 de setembro de 2001. O presidente Bush, com seu discurso de "guerra ao terror", veio a público dizer que uma luta era inevitável para a manutenção da paz. Os EUA começaram a sua batalha contra o país de Saddam Hussein com o pretexto de encontrar e neutralizar armas de destruição em massa. A desculpa durou até outras informações começaram a vazar. Fontes da CIA desmentiram qualquer indício de armas nucleares, que de acordo com Bush eram montadas no Iraque. E o governo fez de tudo para abafar e desqualificar qualquer tipo de vazamento por parte de sua agência de inteligência.

O mais absurdo desses casos foi o que deu origem à trama de Jogo de Poder, filme de Doug Liman que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira. Valerie Plame (Naomi Watts) era uma agente da CIA no comando de operações de contra proliferação de armas de destruição em massa. Sua tarefa era a de buscar informações a respeito destas prováveis armas, reunir os fatos e através deles, concluir quais eram verdadeiros ou não. Em uma investigação do tipo, começam a surgir indícios da compra de tubos de alumínio para o refinamento de urânio por parte do governo iraquiano. Como o urânio tinha como provável origem o país africano de Níger, Plame indica seu marido, Joseph Wilson (Sean Penn), diplomata que já havia atuado naquele país para ajudar na investigação. Wilson concorda e também conclui que não há nada que indique a produção de armas nucleares. Algum tempo depois, Bush inicia a invasão ao Iraque, seguindo exatamente o pretexto envolvendo o urânio africano.

Logo no início do longa, Liman coloca o personagem de Penn em situações que confirmam um forte engajamento político do diplomata, assim como grande convicção de seus ideais. Pois é justamente isso que leva Wilson a escrever um artigo para o New York Times com a sua versão dos fatos, causando um grande incômodo para o governo norte-americano. Em uma atitude maquiavélica, a Casa Branca vaza para a imprensa a ocupação de Valerie na CIA, na tentativa de desviar a atenção do público para a vida pessoal do casal.

Responsável por levar Jason Bourne para o cinema, Liman não perde o ritmo ágil de sua câmera nos primeiros 40 minutos do longa. A partir daí, sem quebrar a tensão e sem parecer arrastado, o roteiro passa a analisar mais o lado humano dos personagens e como toda essa reviravolta poderia afetar suas vidas. De thriller político, Jogo de Poder passa para o drama e para o confronto de ideias. Wilson começa uma guerra inconsequente contra a Casa Branca, arriscando sua carreira e levando uma parcela da população a considerá-lo traidor de sua pátria. Plame, agente da CIA há 18 anos não consegue ter a mesma convicção do marido e por um senso de patriotismo distorcido, mantém-se calada a respeito de tudo. Até perceber o ponto onde tudo estava indo longe demais. E é justamente aí que a película encontra sua força, nas relações entre os personagens e nas interpretações de Penn e Watts.

É importante ressaltar que o filme é bem claro em suas mensagens. Não é anti-americano e nem propaganda esquerdista. O fato é que a história em si depõe contra as ações da Casa Branca. Não precisa ser panfletário para causar asco ao mostrar um membro do governo cogitando vazar uma informação que poderia levar até mesmo à morte de uma agente que jurou defender seu país e assim o fez por quase duas décadas. Claro que a extrema-direita americana não recebeu muito bem a produção e tentou desmerecê-la por "exageros" por sua equipe criativa. Ora, não se pode esquecer que se trata de um produto de entretenimento e liberdades são tomadas para efeitos dramáticos. O pano de fundo, porém, muito bem representado por imagens da CNN e outras emissoras de notícias é totalmente verídico.

Por seu segundo ato humanizado, o discurso mais engajado, feito rumo ao desfecho do longa, não parece forçado e entra naturalmente na cabeça do espectador, seja ele tão politizado quanto o personagem de Sean Penn ou não. O controle de informações para desviar a atenção do público não prejudica o poder, ou aqueles envolvidos na história. Prejudica o povo, que aos poucos, conforme o tempo passa, pode começar a se sentir traído por aqueles que foram escolhidos para representá-los. No fim, a mensagem se aplica a qualquer país que queira honrar sua democracia e que não busca ser lembrado por guerras forjadas na mentira e na paranóia de sua população.

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Crítica: Assassino A Preço Fixo (2011)

Na versão original de Assassino a Preço Fixo, o diretor Michael Winner apresenta o personagem Arthur Bishop de forma espetacular. São 15 minutos sem um único diálogo e que servem para mostrar como o assassino interpretado por Charles Bronson é metódico e "limpo" em suas mortes. Sem precisar de frases de efeito ou alguma cena de ação mirabolante, o espectador capta a essência de Bishop, tornando o restante do longa um bom exemplo de roteiro sem pressa pra contar a história, com a trama evoluindo conforme os acontecimentos, sem nada forçado. Soma-se a isso o subtexto já comentado aqui, o filme original pode não ser uma obra-prima, mas é uma daquelas produções em que se percebe um desenvolvimento e uso de técnicas cinematográficas cada vez mais raras hoje em dia.

O novo Assassino a Preço Fixo, com Jason Statham como protagonista, joga tudo isso pro alto. Embora os elementos de construção do personagem principal estejam lá, graças a falta de uma forma mais natural de apresentá-los, eles surgem brusca e gratuitamente na tela, quase subestimando o poder de dedução de quem assiste.

A trama é basicamente a mesma. Bishop é um assassino de aluguel que vê no filho de um antigo amigo a chance de treinar um substituto (vivido agora por Ben Forster).

Quem dirige é Simon West, um cineasta sem grandes qualidades a não ser criar boas cenas de ação. Nisso, o filme não faz feio, embora demore um pouco a engatar sua primeira sequência mais movimentada. Vale destacar também a fotografia que reforça cores quentes e até adiciona um granulado emulando um pouco o visual setentista. O problema de Assassino... está nas conveniências do roteiro. Se na versão original, o diretor prefere não mostrar a cena de sexo de Bronson com uma prostituta, aqui, ela aparece de forma selvagem e grosseira, sem acrescentar nada ao personagem (a não ser uma certa bipolaridade: o sujeito calmo e quase zen, na hora do sexo libera toda sua energia contida). Outra brincadeira com a inteligência do espectador é forçar uma trama de vingança. Enquanto, como dito acima, o original se vale de uma ação gradual que convence, aqui as coisas começam a acontecer sem a menor lógica para dar alguma motivação para a trama. Coincidências como a cena em que um personagem que Bishop dava por morto, aparece justo no aeroporto em que o protagonista estava, ou Steve perceber a arma que fora de seu pai e deduzir que este fora morto pelo personagem de Statham, só servem para menosprezar a boa vontade de quem gastou alguns trocados para assistir ao filme no cinema. E também pra demonstrar como os roteiristas hoje em dia são covardes em não assumir a natureza assassina e mercenária dos protagonistas. Sim, porque se no original matar era a profissão, agora se torna um meio para um fim mais "nobre".

No fim, a refilmagem vai se tornar aqueles filmes de Super Cine, com sua trama rasa e visual bacana e que você provavelmente nem vai lembrar que assistiu quando acordar no domingo de manhã.

P.S.: uma coisa preciso reconhecer: os pôsteres do filme foram muito bem feitos, a maioria fazendo referência aos anos 70 e até mesmo um que replica o pôster do primeiro filme.

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Cenas Memoráveis (Bônus da Semana) - Era uma Vez no Oeste

No começo desta semana finalmente pude conferir no cinema a animação Rango, que além de ser engraçadíssima, é um deleite pra cinéfilos e admiradores da cultura pop. Referências e mais referências pipocam pela tela, seja no visual extremamente bem construído ou na trilha de Hans Zimmer (que tem demonstrado um amadurecimento absurdo de uns 3 anos pra cá). A história do lagarto que chega em uma cidade no deserto de Mojave pra se descobrir um herói traz como maior inspiração o cinema de Sergio Leone e seus colegas diretores do subgênero Western Spaghetti, como ficaram conhecidos os bang-bang produzidos na Itália.

Porém, uma das referências que mais me chamou atenção foi o uso do som em algumas cenas. Leone ficou famoso por seus closes nos olhos dos protagonistas e seus enquadramentos mais intimistas, mas quem assiste seus filmes não pode deixar de notar como a edição de som é importante para definir o "clima" da cena em questão. E Gore Verbinski, o diretor de Rango, usa isso em vários momentos de tensão, como o duelo final na rua principal de Poeira, a cidadezinha que parou no tempo do Velho Oeste.

Um bom exemplo dessa característica do cinema de Leone é a cena de abertura de seu clássico Era uma Vez no Oeste. São 15 minutos de um dos momentos mais tensos do cinema, com grande parte de seu ritmo devido justamente ao som. Pra quem não conhece a cinematografia de Sergio Leone, Era Uma Vez... é um dos filmes mais completos pra se entender a forma como o diretor italiano rodava seus longas. E a cena abaixo é um momento de puro cinema, uma aula de extensão de tempo, cujo maior aluno foi Quentin Tarantino, que fez de seu Bastardos Inglórios quase um Trabalho de Conclusão de Curso da escola cinematográfica Leone. Mas isso é assunto pra outro post. Se você for assistir Rango, com certeza vai se divertir muito mais se conhecer Era Uma Vez no Oeste e Três Homens em Conflito, outra produção do diretor italiano que serviu de inspiração para a animação do lagarto.

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Trilhas Marcantes: Chinatown (1974)

Considerado um dos trabalhos mais importantes de Roman Polanski, Chinatown é um noir revisionista do diretor, com Jack Nicholson no papel de Jake Gittes, um detetive que se vê envolvido em uma trama psicológica de proporções trágicas. A produção ficou famosa por, além de sua trama contruídas em camadas, sua reconstrução de época e também por seu ritmo, inspirado pelos filmes noir dos anos 40. Porém a referência não estaria completa sem um tema que pudesse imediatamente se comunicar com o espectador, e o levasse ao período que o filme se passa.

Philip Lambro foi o compositor escolhido inicialmente para fazer essa conexão, mas o resultado final não agradou, levando o músico a ser demitido. Para substituí-lo foi chamado Jerry Goldsmith, que teve apenas 10 dias para criar uma obra-prima, hoje considerada uma das melhores trilhas já compostas para um filme e que está em nono lugar no Top 25 de Trilhas Incidentais do American Film Institute.

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Dissecação de um filme - Assassino a Preço Fixo (The Mechanic 1972)

Atenção: O post a seguir contém spoilers pesados do filme Assassino A Preço Fixo. Se você pretende assistir a refilmagem que estreia no Brasil em 11 de março, siga lendo por sua conta e risco!

O Segredo de Brokeback Mountain foi um romance homossexual situado num cenário improvável: o mundo dos caubóis americanos, simbolos da masculinidade nas terras do tio Sam.Mas, o filme com Heath Ledger é recente, feito em uma época em que preconceitos têm dado lugar a tolerância. E se nos anos 70, no auge do cinema policial violento e cru de clássicos como Dirty Harry - Perseguidor Implacável ou Operação França, surgisse algo um pouco mais enrustido, mas que fosse tão gay quanto a história de amor dos dois vaqueiros? Pois é, surgiu. E protagonizado por ninguém menos que Charles Bronson, no auge de sua carreira como herói de ação.

A década de 70 foi um período em que a liberação sexual começava a crescer, vindo principalmente do movimento hippie, que pregava a tolerância e respeito independente de cor, opção sexual ou credo. Foi graças a essa abertura que movimentos surgiam pedindo direitos iguais. No cinema, filmes como Um Dia de Cão (1975) de Sidney Lumet, tratavam da questãocom muita naturalidade. Porém, este clássico com Al Pacino tem um público alvo que permitia essa abordagem, diferente de Assassino a Preço Fixo, de 1972. Voltado para o espectador de filmes de ação, que tinha em Dirty Harry seu mais recente exemplar de herói durão, o filme mostra Charles Bronson como Arthur Bishop, um assassino de aluguel que faz amizade com o filho de um velho amigo, Steve Mckenna, interpretado por Jan-Michael Vincent, e vê no rapaz um provável substituto para quando o momento de sua aposentadoria chegar.

A primeira cena em que os dois se encontram se passa na casa do amigo do personagem de Bronson. Eles estão bebendo e o rapaz aparece. O primeiro take mostra Bronson ao fundo, longe, quando de repente, surge Steve, ou melhor, seu traseiro. Corta para o próximo take, plano fechado no rapaz, sugerindo uma troca de olhares com Bronson. Corta para Bronson, que vê o jovem e a cena também sugere uma troca de olhares. Confira a sequência de imagens abaixo.

Logo depois, Bronson vai para um quarto de hotel onde encontra uma moça que o espectador logo deduz ser uma namorada ou antiga paixão. Ela reclama de sua ausência e lê uma carta de amor pra ele. É notável a falta de sentimento de Bronson, e quando a mulher começa a chorar, ele se comove, a abraça e ela o beija. Ele, aos poucos passa a desviar a cabeça, olhando pra cima e ignorando as carícias dela. Em seguida a põe no colo e a leva pra cama. Era muito comum nessa época, principalmente nesse tipo de filme, uma cena de nudez ou até mesmo do ato sexual, para reforçar que aquele seria um personagem extremamente masculino. Aqui, por outro lado, temos um corte já para o dia seguinte. Bronson está terminando de se vestir e a mulher ainda está dormindo. Ele arruma o cabelo várias vezes e pra terminar, deposita uma quantidade de dinheiro numa caixa, revelando então que sua parceira é uma prostituta. Quando está indo embora, ainda reclama para que da próxima vez, a carta seja mais educada.

Na sequência, o protagonista vai até um parque aquático e sofre um desmaio. O médico que o atende na emergência desconfia que o diagnóstico tenha sido um ataque de ansiedade e sugere que Bronson procure um psicólogo. Seriam sinais de que o assassino está com crise de consciência ou que o "machão" começa a ter dúvidas quanto a sua masculinidade?

A cena seguinte mostra Bishop de manhã em sua casa. Ele se levante e percebe um carro parado em frente. Sai de roupão vermelho e vai até o veículo. Supreende Steve, e o chama para entrar. Após algumas cenas dos dois saindo para pilotar um avião, jogar squash e beber num bar, Bronson finalmente explica a natureza de sua profissão. O rapaz se mostra interessado e o protagonista resolve então treiná-lo para ser seu ajudante e, talvez, seu substituto. O espectador vê então uma cena em que os dois estão treinando tiro. Logo depois da exibição de quem usa melhor a espingarda (não preciso explicar o significado dessa cena, certo?), duas cenas surgem de forma muito curiosa. Bronson leva seu pupilo para um museu de cera e depois para um jantar num lugar bem sofisticado. Praticamente o programa padrão para um casal de namorados.

As próximas cenas mostram o assassino viajando para a mansão de seu empregador, que o repreende por envolver alguém novo em seu serviço. E passa para ele uma missão na Europa. Ao voltar pra casa, a primeira coisa que faz é ligar pra Steve, e se decepciona quando este não atende o telefone. Como um profissional preocupado ou como um namorado ciumento, Bronson parte para a casa do rapaz e não o encontra. Porém, descobre uma ficha como as que ele recebe indicando seus alvos. A surpresa é descobrir que a ficha era sobre ele. Volta pra casa, sem levantar suspeitas. Corta para Bishop, de roupão. Steve entra e é indagado sobre onde esteve. Quando a resposta era que estava com uma garota, Bronson imediatamente corta o assunto, dizendo que não quer saber dos detalhes. Diz que seu proximo serviço é na Europa e o jovem se oferece para ir. A reação do protagonista não poderia ser mais apaixonada, quando abre um enorme sorriso: "Por que não?". Corta para Bishop deitado em sua cama no que deveria ser um momento de preocupação. Porém, a forma comoa cena é construída o situa num momento de frustração. Abraçado em seu travesseiro e fazendo bico, Bronson se sente traído.

Na Itália, começam os preparativos para eliminarem o alvo. Nada que impeça uma tarde romântica ao som de um cantor de rua, que toca e canta O Sole Mio.

Depois de toda a ação, o desfecho não poderia ser mais inspirado em histórias de amor impossível. Bronson está com as malas prontas para voltar para a América e se depara com seu aluno, abrindo uma garrafa de vinho. Os dois bebem, mas há algo errado. O experiente assassino sente um sabor estranho e um odor vindo da taça. Começa a passar mal e seu aprendiz explica o veneno usado. Ele tem poucos minutos e morre, ouvindo o rapaz se gabar de seu feito.

Sozinho, o aluno que agora deveria tomar o lugar de seu mestre, volta para os EUA e ao entrar em seu carro encontra um bilhete e também sua sentença de morte, ao terminar de ler, uma grande explosão toma conta de seu veículo, terminando com os dois personagens mortos.

Assassino a Preço Fixo é um filme quase único. Seu subtexto homoerótico talvez tenha passado sem ser notado na época de sua exibição, mas hoje é impossível assistí-lo sem percebê-lo. O diretor Michael Winner foi responsável também, neste filme, por coreografar uma cena de perseguição de motocicletas muito bem. É digna de cenas do gênero como o já citado Operação França e Bullitt. A sequência na Europa também foi muito bem rodada e lembra um pouco os filmes de James Bond com Sean Connery, na construção das cenas de ação e na fotografia.

Agora em 2011, em que os tempos permitem uma abordagem mais aberta do tema, a refilmagem com Jason Statham tem a chance de ser um filme diferente do original justamente na relação dos personagens. Ao invés do assassino enrustido, Statham poderia muito bem encarnar um herói de ação que não tem dúvidas quanto a sua sexualidade e vê no jovem Steve, agora interpretado por Ben Foster, mais do que um pupilo, mas a chance de ter um parceiro no trabalho e no amor. Dificilmente, porém, o diretor da nova versão, Simon West, partiria por esse caminho. Pois mesmo agora, em que o espectador deveria ser mais liberal, falta coragem em desconstuir o herói másculo, que se envolve em grandes perseguições, mas que a noite, quando ninguém está vendo, dorme abraçado com um travesseiro.

Continua...
 
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