Crítica: Batman - O Cavaleiro das Trevas

Na época das gravações de Batman Begins, em uma entrevista, Christian Bale, o ator que vive Batman na nova franquia, declarou que a renovação do personagem no cinema era a adaptação de Graphic Novels e não de Histórias em Quadrinhos. De forma alguma Bale ofendeu as HQs, mas resumiu o que ele, o diretor Christopher Nolan e todos os outros nomes envolvidos no projeto estavam fazendo. Com Batman Begins, os “filmes de quadrinhos” tinham um exemplar sólido, realista e que elevava o nível de como colocar um personagem assim nas telonas. Agora, com Batman – O Cavaleiro das Trevas, Nolan faz o que parecia impensável: algo muito melhor. O filme que estreou nesta ultima sexta é muito mais do que um filme de quadrinhos. É um filme. E se ele se encaixa em alguma gênero está mais para o drama policial, do qual fazem parte Fogo contra Fogo, Os Infiltrados e Os Intocáveis.

Enquanto os melhores filmes de quadrinhos até agora foram produções família com uma pitada de temática adulta, Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme adulto, com temática adulta. Não se engane. Embora os adolescentes de 15 anos ou as crianças de 10 irão adorar as incríveis cenas de ação, a produção irá agradar mesmo quem tem um pouco mais de experiência nas “coisas da vida”. Porque o Cavaleiro das Trevas é mais baseado no drama de um herói que arrisca perder tudo para prosseguir com sua jornada, do que em alegorias milionárias de efeitos especiais. Finalmente podemos dizer que temos um filme de HQ realmente sério. Que fala de esperança e de como sofremos quando a perdemos. Das consequências de se fazer o que é certo, ou do que achamos ser certo. Nisso, Batman tem até uma semelhança com George Bush, bem nítida quando vai a Hong Kong pegar o mafioso Lau e levá-lo a Gotham sob custódia. Ou quando vira uma espécie de Big Brother. Tudo em nome de sua cruzada para livrar sua cidade do mal.

E o mal desta vez vem representado pela figura anárquica do Coringa, interpretado de forma magistral por Heath Ledger, ator morto no início deste ano devido a uma overdose acidental de remédios. Suas ações absurdas e totalmente imprevisíves fazem deste um dos vilões mais marcantes dos últimos anos. A maneira como manipula os personagens com seus joguinhos, como coloca a cidade toda no limite, vai além de praticamente tudo que o Coringa já fez nos próprios quadrinhos. Talvez as duas caracterizações do vilão que mais se assemelham ao que Heath Ledger faz sejam as mostradas nas Graphic Novels A Piada Mortal e Asilo Arkham. E a escolha dos irmãos Nolan (Christopher co-roteirizou com seu irmão Jonathan) de não revelar a origem do personagem o torna ainda mais ameaçador. Imaginar se alguma das versões que ele conta em momentos distintos do filme é realmente verdadeira já é, por si só, um belo exercício de intimidação. É a interpretação definitiva do Coringa, sem dúvida.

Além do Palhaço do Crime, Batman tem de enfrentar também a máfia, agora sob o comando de Sal Maroni (Eric Roberts). Mas, ele não está sozinho. Ao seu lado estão o Tenente Jim Gordon (Gary Oldman) e Harvey Dent (Aaron Eckhart), o novo promotor público, o Cavaleiro Branco de Gotham. Dent é uma bela surpresa. Ele é, de certa forma, a espinha dorsal do filme. Não que o Homem-Morcego seja deixado para trás, mas o honesto promotor tem a história mais interessante, justamente por ser tão trágica. Todos sabemos que ele irá se tornar o Duas-Caras, mas as circunstancias dessa transformação são muito mais interessantes do que as mostradas nos quadrinhos. De sua ascenção a sua queda, sentimos pelo personagem uma espécie de compaixão, porque sabemos que ele simplesmente teve seu “dia ruim”. E isso o muda completamente. Não é só Ledger que entregou sua melhor performance. A honestidade que Aaron Eckhart traz para Dent quando de seus momentos como promotor é tamanha, que realmente acreditamos que ele possa mesmo fazer a diferença numa cidade tão corrupta. E a sede de vingança quando o personagem ressurge como Duas-Caras é intensa e também nos faz pensar se, nas situações vivenciadas por ele, agiríamos de forma diferente.

Ainda falando de coadjuvantes, Michael Caine e Morgan Freeman repetem de forma brilhante seus personagens do filme anterior, o mordomo Alfred e Lucius Fox, o CEO das Empresas Wayne, respectivamente. A ambos, foi dada uma importância ainda maior e melhores diálogos também. Desta vez o humor se encaixa de forma muito mais natural e realmente funciona como uma vávula de escape diante de tantos momentos dramáticos e sombrios a que somos apresentados. A adição de Maggie Gyllenhall ao elenco como Rachel Dawes também foi muito bem-vinda. Deu muito mais credibilidade a personagem, anteriormente interpretada por Katie Holmes.

O filme deixa um gancho fantástico ao final de suas quase 2 horas e meia. Não é o gancho que a maioria espera. Muitos vão até reclamar do final. Mas, tudo de encaixa de forma tão perfeita quando percebemos que a história toda leva ao que acontece. Todas as reviravoltas do filme, todo o plano bem orquestrado do Coringa leva ao trágico destino de um dos personagens principais, que poucos podiam imaginar que seria resolvido agora e não num futuro terceiro exemplar. A verdade é que se Nolan voltar a direção, as coisas vão ter um caminho diferente do que, quando ao final de Batman Begins, o Tenente Gordon olha para o herói com um sorriso de esperança. Gotham ficou com cicatrizes tão profundas quanto as que o Coringa tem no rosto. E que vão demorar muito para sarar.
Continua...
 
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