Crítica: Karatê Kid (2010)

Deve haver um consenso entre críticos sobre a refilmagem de Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984). Parece que para se sentirem mais cult, ou para que seus leitores facilmente influenciáveis pensem isso, esbravejam apontando muito mais erros do que acertos em relação ao original, tratando o filme dos anos 80 como obra irretocável. Existe também um medo por parte dos fãs de cinema de qualquer tipo de remake. Junte tudo isso e tenha como resultado um preconceito tremendo com a nova versão que cegou alguns jornalistas a ponto de não conseguirem enxergar nada de bom nessa atualização.

A partir de agora, vou pedir licença a você leitor, pois vou me permitir escrever essa resenha em primeira pessoa. Não vou negar que ao anúncio de uma refilmagem de um dos filmes que fizeram parte da minha infância, senti medo. Primeiro por colocar o filho de Will Smith, Jaden, no papel principal. Depois, pela escolha de Jackie Chan para ocupar o lugar do Sr. Myiagi. “Onde esses produtores estão com a cabeça?”, pensei. A idéia de um garoto de 12 anos lutando e ainda por cima trocarem a etnia do tão amado mestre de Karatê não me agradou. Lancei mão de preconceitos pra achar que vinha por aí mais uma tentativa frustrada de recriar um sucesso. E foi assim durante toda a produção do filme. Não vi fotos, não vi trailer, não quis saber de ver o clipe do Justin Bieber. Mas, a estreia chegou e o nome da franquia falou mais alto: eu não poderia deixar de ver o novo Karatê Kid.

De todas as mudanças, obviamente a que mais gerava dúvida: por que manter o nome do filme se agora o enfoque era no kung fu? Simples. A partir do momento que o filme se apresenta, meus preconceitos foram ao chão. O nome é o primeiro sinal de respeito a obra original. Karatê Kid virou mais que o titulo da franquia e se torna quase um adjetivo. É “Karatê Kid” qualquer garoto que consiga superar seus medos através do enfrentamento de seu maior inimigo: ele mesmo.

A história é a mesma que a Sessão da Tarde transmitiu a exaustão: Dre Parker é um pré-adolescente que muda de cidade com a mãe, encontra um interesse romântico, apanha do valentão e graças ao mestre em artes marciais, o Sr. Han, supera desafios, ganha o coração da garota e vence o torneio de kung fu. Durante as 2 horas e 20 de filme, são várias as citações ao clássico oitentista. Mas não é disso que o roteiro é feito. Karatê Kid é feito com emoção, com sinceridade e com uma mensagem.

É interessante assistir ao filme com a mente aberta justamente pra entender o quanto essa refilmagem faz mais sentido. Enquanto no original Daniel Larusso era um adolescente mimado, aqui, Dre, com seus 12 anos, está enfrentando a maior mudança da sua vida. E não é sair dos EUA e ir parar na China. Ele está entrando na adolescência. É muito mais crível o que acontece com ele aqui do que o que acontecia com Daniel-San. E isso realmente fica mais interessante graças a interpretação de Jaden Smith. O carisma do garoto é infinito. A conexão dele com a público é imediata.

E há Jackie Chan como o Sr. Han. Outra dúvida quanto ao roteiro é até onde esse filme seria uma refilmagem e onde começaria o “filme do Jackie Chan”. Sim, porque esse é um daqueles atores tão marcados que a mera participação já define um gênero de cinema. E aí o que restava de medo acaba por completo. Em momento algum Chan tenta roubar o filme do jovem Smith. A história é do garoto e ponto. Porém, seu personagem, no decorrer da trama, adquire a importância que merece. Essa, aliás, é uma das grandes marcas do roteiro. Não há pressa em contar a história. Tudo vai acontecendo de forma muito natural e aceitável, daí inclusive a longa duração já citada.

Chan provavelmente interpreta o personagem mais interessante de sua filmografia e com muita competência. A forma como ele o constrói utilizando seu rosto ja marcado pela idade pra transmitir toda a dor do mestre. Seus trejeitos cansados, sua postura curvada. Tudo ajuda a levar a trama para o momento onde o Sr. Han revela seu passado trágico. O motivo dele ser um zelador, e de durante boa parte do filme reconstruir um carro. A sua fixação em tentar consertar as coisas. E o relacionamento com Dre, que de simples mestre e aprendiz, se torna quase paterno.

E, claro, como não poderia deixar de ser, as cenas de luta são muito bem coreografadas e filmadas, principalmente na primeira deixa pra Chan exibir seus talentos em artes marciais. Tecnicamente muito superior ao karatê “pra americano ver” do original. Ter sido rodado na China também ajuda, pela longa tradição em filmes do estilo.

Aliás, a China é retratada no longa com muito respeito em belas tomadas que fazem uso do magnífico cenário. É de cair o queixo a fotografia em sequências como a do treinamento na Grande Muralha ou a jornada ao Poço do Dragão. E a academia de artes marciais que toma o lugar da famigerada Cobra Kai do filme oitentista é visualmente perfeita. A primeira tomada do lugar já demonstra isso com inúmeros lutadores treinando em sincronia.

Claro, a obra não é perfeita. Talvez seu principal “pecado” seja cometido no torneio. O golpe final não é tão representativo quanto o golpe da Garça no original por não ser tão bem desenvolvido durante o filme. Mas, se fizermos uma leitura um pouco mais profunda, vai de encontro com o que o Sr. Han diz no começo do treinamento de Dre: que o kung fu está em toda parte.

Karatê Kid é um filme que fará você sair do cinema com um sorriso no rosto depois de passar uma bela mensagem ao espectador, coisa há muito tempo não aparece por Hollywood. E é uma mensagem relevante, tanto quanto foi há mais de 25 anos. E isso até mesmo o mais rabugento dos críticos não pode negar.


*Curiosidades*

Em uma única cena, duas coisas me marcaram: quando Dre resolve pregar uma peça nos valentões que o perseguem, reparem a participação proeminente de um Volkswagen Santana ao fundo. Esse carro, que faz parte da história automobilística recente no Brasil ainda é produzido na China, com grande sucesso. Por aqui, foi fabricado durante impressionantes 22 anos.

Nessa mesma cena surge uma homenagem, não sei se proposital ou não, a De Volta para o Futuro. Pra fugir dos valentões, Dre se esconde entre alguns veiculos que passam por ali, tal qual Marty McFly no primeiro e no segundo filme.

Continua...
 
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