Especial Tron - O Filme original

No final dos anos 70 e começo da década de 80, a informática era chamada de cibernética e seus engenheiros eram caras bem mais esquisitos do que os sujeitos descolados de hoje que criam aplicativos pra iPhone e desenvolvem jogos. Mais estranhos ainda eram os animadores que tentavam, a todo custo, surgir com uma novidade em meio à uma arte que, pelo menos no cinema, havia parado no tempo. São nesses dois cenários, a princípio não muito relacionados, que foi gerado Tron – Uma Odisséia Eletrônica, um audacioso projeto que por sorte caiu nas mãos de um grande estúdio, a Disney.

Steven Lisberger era o dono de uma empresa especializada em animações e crescia no ramo ao produzir comerciais para TV. Mas suas ambições estavam no cinema, um sonho que parecia impossível para quem, na época, não estivesse sediado em Los Angeles. Quando percebeu isso, ele e seu sócio, Donald Kushner resolveram tentar a sorte na cidade dos anjos. Desde essa época, uma imagem era recorrente na imaginação de Lisberger: um guerreiro de neon. Lembre-se, estamos falando do final da década de 70 e qualquer coisa de visual futurista era carregada desse tipo de iluminação. Chegando na terra do cinema, resolveu desenvolver melhor essa ideia mesmo sem dar muita atenção ao fato de que ele não tinha noção de como dar vida a essa história e, mesmo que tivesse, não havia dinheiro pra isso.

Foi então que sua empresa, ao criar um curta indicado ao Oscar de melhor curta animado, começou a chamar atenção. Lisberger e sua equipe desenvolveram então uma outra animação, Animalympics, com o intuito de vendê-la para TV e conseguir verba pra dar andamento ao projeto que agora já tinha o nome de Tron.

Depois de muitos esboços feitos, roteiros reescritos e cálculos provando que seria impossível produzir Tron como um filme independente, Lisberger e Kushner decidem bater às portas dos estúdios. Embora amparados por desenhos de produção mostrando o visual proposto, quase ninguém entendeu o que seria aquilo e, mesmo a Disney, que se interessou pelo projeto, não conseguia visualizar direito o que aqueles dois tinham em mente. Mesmo assim, resolveu dar a eles uma chance e comprou a ideia. Foi então que Lisberger e Kushner caíram na realidade: agora teriam mesmo que fazer o filme.

Para ajudar o processo visual foram contratados dois ícones: Syd Mead e Jean Giraud, o Moebius. O primeiro, um engenheiro industrial que ficou famoso por seus designs futuristas e práticos em Blade Runner. O segundo, o quadrinhista francês que despontava nas páginas da HQ Heavy Metal. Coube aos dois a responsabilidade de dar a Tron um visual que pudesse ser criado a partir de técnicas cinematográficas que misturavam animação convencional, CGI e um complicado processo manual de manipulação da película. Peraí. CGI? Em 1980? Sim, é aqui que o filme se destaca por seu pioneirismo. Era a primeira vez que uma produção para cinema usaria animação gerada por computador.

A história de Tron não é tão criativa: um desenvolvedor de softwares é mandado embora da empresa onde trabalha depois de ter seus projetos roubados pelo seu chefe. Com a ajuda de mais dois engenheiros, consegue entrar na empresa pra procurar provas e incriminar seu “algoz”, mas é transportado para o mundo virtual onde vive Tron e vários outros programas, que são dominados por um software do mal chamado MCP. Nada demais até aí, é quase uma versão digital de Nárnia ou Alice. O que realmente começou a chamar atenção dos executivos da Disney eram os efeitos e até onde poderiam ir com todo aquele visual que estava sendo criado. No roteiro, o único ponto alto era o cenário quase profético de computadores ligados em uma rede mundial. Tudo feito de uma forma muito amadora e sem muita relação com a linguagem de softwares que se utilizava. Mas mesmo assim, com um pé na realidade.

Tron ainda contou a trilha sonora de Wendy Carlos e seus sintetizadores, na época outro clichê do futurismo. Mas quando foi lançado não obteve o resultado esperado. A Disney tinha esperança de voltar a produzir filmes live-action, mas Tron não foi exatamente o ânimo que o estúdio precisava. Talvez por causa de uma direção inexperiente, o filme tem um ritmo lento e o roteiro não empolga. Os destaques eram mesmo o visual e a atuação de Jeff Bridges. O filme, porém, cresceu ao longo dos anos. Quando Hollywood percebeu que a computação gráfica poderia ser utilizada para criar efeitos especiais, Tron começou a ser lembrado por seu espírito inovador. E, graças ao home vídeo, o público também passou a apreciá-lo melhor, fazendo com que se tornasse um clássico cult.

Talvez seja essa a justificativa para criar uma continuação quase 30 anos depois do original. Ou também a tentativa de se ganhar dinheiro baseando-se numa nostalgia crescente à decada de 80. Seja qual for a razão, um novo Tron pode não ter o mesmo impacto criativo ou nem virar cult como seu antecessor. Porém, ao se tornar um dos filmes mais esperados do ano, deve encher do orgulho quem um dia pensou que os computadores poderiam servir pra algo além de cálculos complexos e ajudou a transformar a “cibernética” em uma coisa cool e não muito diferente da informática de hoje.

Continua...
 
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