Crítica: Cisne Negro

Para assistir Cisne Negro é preciso estar ciente de uma coisa. O filme, dirigido por Darren Aronofsky, é, de sua cena inicial até o fim dos créditos, uma jornada pela mente da bailarina vivida por Natalie Portman. Nina (Natalie Portman) nos é apresentada aos poucos, com sua obsessão pela perfeição de sua arte, seus desejos reprimidos e sua perturbada rotina. De dia, nos cansativos ensaios, e a noite, com sua mãe, que a trata como uma eterna garotinha. A mente da protagonista não é, definitivamente, um lugar confortável para se estar.

Usando como espinha dorsal para a história, o balé O Lago dos Cisnes, Aronofsky cria mais uma obra perturbadora em sua análise psicológica, com melhorias em algumas de suas marcas registradas. A edição do filme é fundamental para esse envolvimento do espectador. Assim como a trilha sonora, composta por Clint Mansell a partir de temas do citado balé. Como em Pi e Réquiem Para um Sonho, o diretor parte para uma análise de personagem que ecoa Dostoievsky e Kafka. No meio cinematográfico é fácil citar Cronemberg.

Nina, em sua busca pela perfeição, precisa descobrir dentro de si o Cisne Negro do título, no balé a gêmea malvada do Cisne Branco. Funciona como metáfora. A bailarina precisa interpretar os dois papéis mas tem uma enorme dificuldade em encontrar o tom correto para seu lado sedutor e malvado. Como já citado, sua mãe (Barbara Hershey) a trata como criança, embora a personagem tenha 28 anos. Imagine a pressão de interpretar um dos personagens mais importantes do balé e ainda aguentar as implicâncias da mãe. Como Aronofsky conta sua história do ponto de vista de Portman, a mãe é sempre retratada como megera. Porém, conforme o roteiro vai permitindo aos poucos, percebe-se uma tentativa de proteção. Ela sabe que a filha sofre de algum distúrbio, só não identifica o que é como também não se vê como um dos principais motivos da garota ser tão problemática.

A bailarina rival de Nina, vivida por Mila Kunis, é tudo que a protagonista precisa ser para se sair bem aos olhos do diretor de sua companhia, o francês Vincent Cassel. Porém, a personagem de Portman, em seu julgamento turvo, a vê como um empecilho, quando, como Cassel diz em determinado momento, a única pessoa no caminho é ela mesma, a própria Nina. Ela foi ensinada a ser doce, motivada a ser delicada. E agora, sua personalidade está confusa.

Aronofsky cria um drama com momentos de suspense, que satisfaz em sua proposta. A interpretação de Portman é digna, principalmente nos lampejos de sua outra metade, a que ela nunca se deixa revelar. Kunis faz sua personagem de duas maneiras: como ela é, e como Nina a vê. E se sai bem em ambas. Tecnicamente o filme é impecável. A já citada edição e a fotografia de Matthew Libatique ditam o ritmo da produção, que não por acaso ja é considerada como um dos melhores filmes do final de 2010.

É gratificante ver o cinema em boa forma, como em Cisne Negro. Aronofsky pode não procurar a perfeição à exaustão de sua protagonista, mas aos poucos se coloca lado a lado dos grandes nomes da sétima arte com sua filmografia autoral e incisiva, sempre com análises que incomodam em sua natureza, mas que não falham ao mostrar o que a mente, embora de grande poder, é também de grande fragilidade.

Continua...
 
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