Dissecação de um filme - Coração Satânico (Angel Heart, 1987)

O texto abaixo contém spoilers pesados de Coração Satânico e não é recomendável à quem não conhece o filme e pretende assistí-lo.



Se você não viu Coração Satânico, veja antes de ler o post. Afinal, nenhum filme se resume a uma análise fria de cenas.


Com Chinatown, de Roman Polanski, criou-se uma vertente do filme policial. O neo-noir se refere aos longas com elementos dos thrillers dos anos 30 e 40, mas produzidos após os anos 70 (embora alguns críticos considerem algumas produções sessentistas como neo-noir, Chinatown é, sem dúvida, o maior representante). E na década de 80, houve algumas tentativas bem sucedidas de se emular as características do cinema noir, aquele clássico que você deve conhecer com Humpfrey Bogart como grande ícone. Blade Runner, O Ano do Dragão, Perigo na Noite, entre outros, foram produzidos com muita competência em mostrar o (anti)herói relutante, as femme fatales, as tramas de intriga e os personagens de caráter duvidoso.


Em 1987, o diretor Alan Parker se apossou do estilo (porque os teóricos não consideram o noir como um gênero) para contar uma história de terror e se beneficiou imensamente disso. Coração Satânico é uma adaptação do livro Falling Angel de William Hjortsberg, porém, além da trama principal, o longa compartilha pouco da narrativa literária. Isso porque Parker, como Ridley Scott em Blade Runner, preferiu por uma linguagem mais pessoal, carregada de simbolismos para ajudar no andamento da história. Por isso, Coração Satânico merece uma análise da utilização de símbolos e de sua atmosfera opressiva e decadente. O cineasta, com seu diretor de fotografia, Michael Seresin. e seu diretor de arte, Armin Ganz, conseguiu criar uma obra fortemente baseada no visual mas que não deixa de lado o roteiro, carregado de ironias e subtextos.


Coração Satânico começa mostrando um sombrio beco da Nova York dos anos 50 na escuridão da noite. A neve cobre a calçada e a silhueta de um homem caminha enquanto os créditos iniciais são revelados. Corta para um gato, em uma sacada, e logo depois para o beco novamente, quando um cachorro surge em cena e ameaça o felino lá de baixo. Uma bela caracterização sobre do que o filme trata. Uma caçada, como a trama sugere em seu início, mas também sobre um predador que mantém sua presa acuada, mesmo ela estando em terreno mais elevado, onde aparentemente a ameaça não chegaria. O cachorro desiste de sua perseguição e continua sua caminhada apenas para encontrar um corpo de um homem que teve seu pescoço cortado. Seria a misteriosa figura de minutos atrás, o assassino?





Na sequência seguinte, o filme apresenta seu protagonista, Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, em uma atuação memorável. Angel é um detetive decadente chamado por uma firma de advogados para atender um novo cliente. Um encontro é marcado entre eles. No caminho, uma cena interessante mostra que Harry, apesar de sua profissão, tem boa índole, como seu nome sugere. Enquanto caminha até seu destino, o vento tira o chapéu de uma senhora e Angel imediatamente o pega do chão para entregá-lo a sua dona.







Ao entrar no local do encontro, o espectador é gradualmente apresentado ao cenário, quando o som, aos poucos, revela um culto religioso acontecendo ali. É uma igreja e Harry chega justamente no momento em que o pastor diz algo como "se você acredita em Deus, abra sua carteira". É uma das ironias do texto, que ficará bem clara quando a verdadeira identidade do empregador do detetive for revelada. Harry observa tudo do alto, como o gato da primeira cena do filme e também como o "anjo" de seu sobrenome.









Em uma sala em algum lugar do prédio, Harry se encontra, finalmente, com seu misterioso cliente, Louis Cyphre, vivido por Robert De Niro. É bom ressaltar como os nomes dos personagens revelam muito sobre suas naturezas. Infelizmente, Harry não foi tão esperto pra fazer a ligação e, de certa forma, na posição dele, ninguém faria. Cyphre revela o propósito desse encontro. Ele precisa que o detetive encontre Johnny Favourite (novamente, o nome sendo usado para dar pistas sobre um personagem). Favourite era um cantor que tinha um contrato com Cyphre e que desapareceu depois da Segunda Guerra, deixando seu acordo para trás. É bom prestar atenção à posição de De Niro em cena. Ele está sentado em uma cadeira levemente elevada, como se todos que fossem visitá-lo estivessem abaixo dele. Sua postura é de um homem que espera reverência das pessoas que o veem naquela cadeira, como um rei em seu trono.



Harry começa sua investigação por um asilo onde Favourite estaria internado com psicose pós-guerra. Essa sequência mostra o protagonista tirando uma carteira de sua mala e escolhendo, entre várias identidades, qual usaria para tentar descobrir alguma coisa sobre seu investigado. Essa cena é interessante por revelar que um dos temas do filme é justamente a busca por identidade, ainda que o protagonista não se dê conta disso até o último ato da trama.



Depois de descobrir que Favourite não se encontra naquele lugar há 12 anos, Harry decide ir atrás do médico que liberou o paciente do Asilo e segue até um bar para pesquisar na lista telefônica. Nesta cena Harry é mostrado atrás de uma janela com um vidro amarelo, na altura de sua cabeça formando uma espécie de auréola, daquelas usadas em pinturas de figuras santas.





Harry vai até a casa do médico e descobre que este é viciado em ópio. Usa isso para tirar algumas informações e como percebe que o homem está quase desmaiando por querer uma dose de sua droga, o tranca em seu quarto, revelando aí um signo que perseguirá o personagem por toda sua jornada: um ventilador. Quando Harry entra com o médico no quarto, o ventilador gira para um lado, mas conforme o protagonista coloca seu interrogado na cama, o ventilador para e começa a girar para o outro lado. Isso vai acontecer várias vezes durante o filme e sempre indicará a morte do coadjuvante em cena, como Harry descobre momentos depois, ao voltar para o quarto e encontrar o médico com um tiro no olho.



Antes, porém, o detetive sai para caminhar e escuta sussurros chamando por seu nome. O que chama atenção nesta cena é a iluminação que privilegia apenas um lado do rosto do personagem, deixando o outro completamente escurecido por uma sombra. É um recurso muito utilizado para revelar dualidades e que funciona muito bem por colocar essa dúvida na cabeça tanto do espectador quanto do próprio protagonista.



Depois do suposto suicídio do médico, Harry se encontra com Cyphre novamente, pois começa a ter dúvidas quanto ao trabalho, já que poderia ser facilmente incriminado por uma morte em circunstâncias misteriosas. Cyphre convence o detetive a continuar sua investigação enquanto descasca um ovo cozido. Como o personagem de De Niro explica, pouco antes de morder o alimento, o ovo é, em algumas culturas, uma representação da alma. Mais uma pista sobre a natureza de Cyphre que Angel deixa escapar, mais por seu ceticismo do que por distração.





Depois de investigar mais um pouco, Harry descobre que se Favourite estiver vivo, talvez se encontre em Lousiana e segue rumo ao sul dos Estados Unidos. É bom lembrar que ao seguir rumo ao sul, o detetive começa sua descida ao inferno como sugere o título do livro que o filme se baseia.


Uma das pistas sobre o paradeiro de Favourite é Margeret Krusemark, antiga namorada do cantor, que, dizem, lida com magia negra. Aqui, outro símbolo é usado como pista para que a trama seja decifrada. O colar de Margaret tem um pingente com um pentagrama invertido, ícone muito usado no Satanismo.



Angel continua seguindo pistas até encontrar a jovem Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet). Mais uma vez o nome exerce função para a história. A garota mais tarde é revelada como sacerdotisa de voodoo e filha de Favourite. Logo depois, Epiphany e Harry protagonizam uma tórrida cena de sexo em que o ritmo é ditado por goteiras no quarto onde o detetive está hospedado. Quanto mais íntima se torna a relação, mais molhada a cena se revela. Sem precisa entrar em detalhes sobre o significado disso, este é o momento chave em que Harry Angel finalmente concretiza sua descida ao inferno. Ao ir para a cama com Epiphany, surge um comportamento selvagem que não havia ainda se manifestado. Neste momento, a água se torna sangue e Harry a ataca com uma violência assustadora.



Quando percebe que estava quase sufocando a moça, Angel se levanta e esmurra o espelho do quarto, que reflete sua imagem em pedaços, revelando como o personagem se sente, e, como é mostrado mais pra frente na trama, como é a sua personalidade.



No final, somos apresentados ao ponto de virada: Harry e Favourite são a mesma pessoa. O cantor havia feito um pacto com o demônio, Louis Cyphre (Lúcifer), vendendo sua alma. Mas, como se achava esperto demais, descobriu uma forma de enganar o "maior enganador de todos" em um ritual para devorar a alma de outra pessoa, neste caso o verdadeiro Angel. Favourite então é convocado para a guerra mas volta desfigurado e com amnésia, assumindo assim, as memórias de sua vítima acreditando realmente ser Harry. Todas as mortes que acontecem foram efetuadas pelo detetive quando a mente de Favourite despertava. Por isso os ventiladores mudavam de direção, representando a outra personalidade, controlada por Lúcifer, comentendo seus crimes. Como dito acima, o momento do sexo é a derradeira descida de Angel ao inferno, pois comete um deplorável ato de incesto, mesmo sem saber.


Há, além disso, outro elemento surpresa, cuja natureza não será revelada neste texto (quem sabe assim, mesmo depois de já conhecer toda a história, quem não tiver assistido ao filme, resolva o fazer). Os créditos finais, são intercalados com Angel/Favourite, descendo por um interminável elevador, representando sua chegada ao Reino de Lúcifer.





Coração Satânico, como já dito, é dotade de forte apelo visual. E é justamente na riqueza da utilização de símbolos e imagens emblemáticas que a película de Alan Parker encontra força para contar uma história relativamente simples (sem ser vazia). Se fosse apenas um filme de terror, sem todas as referências, não se tornaria tão memorável. Assim como se fosse simplesmente um filme visual, sem um roteiro decente, também não mereceria destaque. E a interpretação de Mickey Rourke também ajuda. É interessante reparar em como seu semblante vai mudando durante o filme. Do detetive decadente mas sempre fazendo piadas, a um homem sem identidade, e que deve encarar as consequências de atos feitos em uma "outra" vida, por assim dizer. Assim, o longa, além de ser satisfatório como exemplo do cinema neo-noir, com suas nuances duvidosas herdadas de Chinatown, também não faz feio como terror, na atmosfera pesada e na sensação de perigo iminente.

Continua...
 
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