Crítica: Sucker Punch - Mundo Surreal

O trailer de Watchmen, quando lançado, serviu pra duas coisas. Primeiro para mostrar aos fãs da obra original que, da adaptação, poderiam esperar algo relativamente fiel. O outro propósito foi o de vender a imagem de seu diretor, Zack Snyder, como a de um cineasta visionário. O tiro saiu pela culatra já que nem a crítica especializada e muito menos os cinéfilos conseguiram aceitar essa "imposição" da Warner de que seu mais jovem contratado pudesse ser um gênio da sétima arte.

Como seus filmes anteriores eram adaptações de livros, quadrinhos e uma refilmagem, faltava algo saído de sua mente "visionária" para, ou mostrar ao mundo seu talento, ou simplesmente confirmar as suspeitas que, apesar de competente, Snyder seria no máximo, acima da média. Sucker Punch - Mundo Surreal chegou aos cinemas no último fim de semana para, pelo menos, juntar um pouco das duas coisas.

A trama gira em torno de Babydoll (Emily Browning), garota que após perder a mãe e passar por abusos do padrasto, acaba internada num sanatório e é marcada para sofrer uma lobotomia. Ela tem cinco dias para o procedimento e resolve fugir após convencer mais quatro garotas (vividas por Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung), também internadas, que juntas podem escapar dali. O filme todo é sobre fuga. Seja das instalações do asilo, como também das missões que Babydoll cria em sua mente. Mas, acima de tudo, Snyder e seu parceiro de roteiro, Steve Shibuya, fazem um interessante ensaio sobre o escapismo, a fuga da realidade para a superação das mazelas do mundo. Para isso, o diretor coloca suas personagens femininas, maltratadas durante suas vidas, para enfrentar os monstros responsáveis por anos de abuso. Tudo de forma figurativa, com as incríveis cenas de ação que ocorrem na imaginação da protagonista.

Durante seus momentos de fantasia, Babydoll cria mundos fantásticos baseados em misturas de ficção-científica futurista com cenários medievais, nazistas e tecnologia steampunk, animação japonesa, videogames, RPG, quadrinhos e tudo mais que for considerado cultura pop. Tudo embalado por uma trilha repleta de covers com arranjos que encaixam perfeitamente nessa salada. Além de servirem seu propósito de metáforas visuais, as referências mostram como Snyder está confortável em digerir tudo que o influenciou até aqui. Não é a toa que até as músicas são releituras de clássicos pop como Sweet Dreams, Search and Destroy e We Will Rock You.

Um diretor devorado por imagens

Ao contrário da escrita que exige tempo de leitura e decifração, permitindo a escolha entre entrar ou não em seu mundo, a imagem convida a entrarmos imediatamente e não cobra o preço da decifração. A imagem não exige uma senha de entrada, pois o seu tributo é a sedução e o envolvimento. A imagem nos absorve, nos chama permanentemente a sermos devorados por ela (...).

- Prof. Dr. Norval Baitello Jr. As Imagens que Nos Devoram - Antropofagia e Iconofagia.


Com efeitos especiais de grande qualidade e uma direção de arte muito competente em criar tantos mundos (mesmo que baseados em imagens recorrentes à diversos gêneros e mídias), Sucker Punch sai da mesmice de filmes de ação e aventura, constantemente presos à fórmulas já consagradas. A grande sacada de Snyder foi a de criar uma narrativa diferente (que se não é original, pelo menos é incomum) para inserir elementos de blockbuster em uma trama ligeiramente mais inteligente à de filmes dirigidos para a grande massa.

Porém, em meio a tudo isso, há um problema. Como citado na primeira parte do texto, Snyder parece ter a obrigação de provar a capacidade de criar uma obra própria e se perde quando leva sua história a sério demais. Talvez por excesso de zelo com seu primeiro trabalho como autor, ou falta de confiança de que um filme baseado fortemente no visual pudesse agradar seu público, Snyder tenta dar a história uma profundidade desnecessária. A própria existência de seu longa já justificaria sua visão do escapismo. Ninguém, ou pelo menos a maioria, culparia o diretor por devorar imagens e as reproduzir a seu modo, como faz em Sucker Punch com muita habilidade. A grandiosidade do visual faz o espectador aceitar tudo de forma natural. Como a citação acima diz, "a imagem convida a entrarmos imediatamente e não cobra o preço da decifração."

Soa estranho portanto, depois de bagunçar um pouco o último ato, o discurso da protagonista, que sugere ao espectador um esforço de criatividade para juntar os pedaços e tirar suas conclusões. Estranho por ser contraditório, já que ao mesmo tempo que instiga o pensamento, subestima a audiência. E o pior, ao pedir para seu público pensar sobre a obra, Snyder superestima a si, numa auto-afirmação de que seu longa foi feito para a discussão. Ao fazer isso o diretor tenta empurrar para o público mais do que o prato principal poderia oferecer, e pesa um pouco na hora da digestão. Não se engane, como Snyder, você será devorado pelas imagens e também as devorará. Mas ter que aguentar filosofia barata e lição de moral pra sobremesa pode acabar causando azia em muita gente.
Continua...
 
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