Crítica: Uma Manhã Gloriosa

Em uma cena de Uma Manhã Gloriosa, uma das estreias deste final de semana, o personagem de Harrison Ford, um jornalista das antigas e cheio de orgulho de seu passado, enumera em quantos momentos da história recente ele esteve presente. É replicado pela personagem de Rachel McAdams, que diz: "você está nessa pelo dinheiro". É mais ou menos essa a sensação do público, ainda acostumado a Ford como um ator de grandes filmes, ao vê-lo atuando nessa comédia sobre o trabalho que dá produzir um bom programa jornalístico matutino. Ou, como o diretor Roger Mitchell e a roteirista Aline Brosh McKenna parecem entender, um péssimo programa jornalístico matutino que rende boa audiência.

A trama gira em torno da produtora executiva do tal programa (McAdams) tentando a todo custo mantê-lo no ar, já que, além de não aguentar a concorrência do Daily Show, infinitamente mais popular, ainda tem que lidar com uma equipe nem um pouco entrosada. Para tentar elevar a audiência, ela convence a contratação do figurão do jornalismo interpretado por Ford. O problema é que ele não vê com bons olhos a ideia de apresentar um programa cujo ponto alto é o bloco de receitas ou as entrevistas fúteis conduzidas por sua co-âncora, vivida por Diane Keaton, histérica como nunca.

O roteiro é assinado pela mesma responsável de O Diabo Veste Prada e, como um sintoma de roteirista de um sucesso só, a fórmula é muito parecida. Personagens caricatos, a garota que quer se dar bem no emprego, mas tem de aturar o superior rabujento enquanto tentar conseguir algum resquício de vida social.

Se fosse apenas uma comédia romântica em que todos sabem que o final será feliz, o filme poderia até se sair melhor. O problema é que conforme os acontecimentos são apresentados, fica uma sensação, pelo menos por parte de pessoas de bom senso, de que as coisas não vão acabar tão bem. Isso fica claro na cena em que McAdams discute com Ford e diz que na briga entre o jornalismo sério e o entretenimento, o primeiro perdeu. Ora, em tempos em que a informação está a todo lado, essa discussão deveria pelo menos fomentar um certo senso crítico de quem acha que matérias sobre que roupa de verão se pode usar no inverno, podem ser interessantes. O roteiro, em certo momento, glorifica que o sucesso está no grotesco, confirmando que mais vale um grande número de views no Youtube do que o medidor de audiência da TV.

No começo do terceiro ato, até surge a esperança de que o filme possa reverter o estrago e mostra que um bom furo de reportagem também garante público. Mas, de forma completamente aleatória, o personagem de Ford decide que pode também se "rebaixar" e que se constranger não faria tão mal assim. Provavelmente ele pensou no que McAdams diz sobre ser tudo por dinheiro e esqueceu, confundindo personagem com a vida real, como era muito melhor no tempo em que entreter também poderia ser um emprego digno.

Continua...
 
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