Pérolas da Dublagem - O Lado Sombrio Dessa Arte


A dublagem brasileira é uma das melhores do mundo. Isso não é achismo, é fato. Porém, como Guilherme Briggs, um dos dubladores mais reconhecidos do Brasil, sempre diz, como em toda área, existe tanto o bom profissional como também o ruim.


Além de ser uma questão de interpretação, para a dublagem ser bem sucedida, é preciso uma boa adaptação da língua original, para o idioma a ser dublado. Pra isso, é óbvio que, além de sensibilidade pra determinar se essa ou aquela expressão está adequada, é fundamental um trabalho de pesquisa, principalmente em casos de filmes ou desenhos que adaptam obras já conhecidas e traduzidas para o idioma em questão.


Apenas quem não entende isso, generaliza e sai por aí dizendo que dublagem é um absurdo. É compreesível que em filmes cuja interpretação do ator fique em primeiro plano, haja a preferência pelo som original, pois obviamente, por melhor que seja o dublador, ele nunca passará pelo mesmo processo de constução da voz que o ator passou. Porém, em casos como longas mais descompromissados cujos intérpretes são mais limitados, a dublagem pode até favorecer o filme. É o caso da clássica dublagem de Duro de Matar, que pode não conter o famoso "Yppie-Ki-Yay, Motherfucker", proferido por John McClane no original, mas tem o competente trabalho de Newton da Matta, por vários anos, dublador oficial de Bruce Willis.


Sem dúvidas, a dublagem é melhor aceita pelo público geral nos desenhos animados. Mas, há algum tempo, mais precisamente antes dos anos 2000, as adaptações para o português deixavam muito a desejar.


Pegue como exemplo o clássico desenho animado dos X-Men. Você que está lendo este texto provavelmente cresceu assistindo o seriado, nas manhãs da Globo e se lembra da voz marcante do Wolverine, feita pelo incrível Isaac Bardavid. O que você não deve se lembrar é que apesar das vozes serem excelentes, a adaptação do texto tinha problemas gritantes. Em vários momentos havia tradução literal de uma frase que não fazia o menor sentido em português. Isso sem contar nos problemas com pesquisa. Bom, na verdade, "problemas" implicaria no fato de que foi feita alguma pesquisa, o que provavelmente não foi o caso aqui. Vários personagens tiveram seus codinomes alterados por falta de tradução (Omega Vermelho ficou Omega Red e Fanático continuou Juggernaut mesmo) ou por adaptação errada (Bishop foi traduzido pra Bispo e a Saga DA Fênix ficou conhecida como Saga DO Fênix).


Pelo menos em X-Men não houve nada bizarro como o próximo exemplo: a série animada do Homem-Aranha. Pegando carona no sucesso dos mutantes, a Marvel lançou esse desenho, muito bom, que adaptava as melhores histórias do Escalador de Paredes. A dublagem ficou a cargo da recentemente extinta Álamo, que fez um trabalho sofrível tanto na escolha das vozes, quanto na adaptação. Na segunda temporada, o Aranha tem seu primeiro encontro com os X-Men, com direito à música-tema do desenho-irmão e tudo. O problema? Simples. Mesmo com o tremendo sucesso dos Filhos do Átomo, conseguiram o feito de traduzir o Fera pra Animal, e o Wolverine para... LOBÃO! Não estou brincando. Alguns episódios depois, é o Demolidor quem dá as caras pelo desenho. Ou, como ele é chamado aqui, o Atrevido. O Justiceiro virou Vingador e a Madame Teia nunca teve um nome fixo. As vezes era Madame Web, outras, Dama da Teia e no fim acabaram acertando no nome. Há também os erros de leitura, única explicação pro Soro do Supersoldado (aquele mesmo que transformou Steve Rogers em Capitão América) virar Soro Supersólido (imagine a dor pra tomar) ou pro Simbionte (o uniforme negro) virar Simbiate. Desconfio que a dublagem tenha sido feita a partir do áudio em espanhol. Explicaria algumas barbaridades mas não justifica a falta de interesse em pesquisar um pouquinho.


Por conta da popularização de quadrinhos, hoje é praticamente inexistente esse desrespeito com a obra. E as pérolas citadas aqui ficam como lição pros futuros profissionais da área. Não custa fazer uma pesquisa antes pra não confundir Langley, local onde fica a base da CIA, com o nome de alguma pessoa. Como toda profissão, a sua boa aceitação sempre virá quando o trabalho for bem feito e a maioria dos profissionais for competente e qualificada.


Continua...
 
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