Crítica: Sherlock Holmes 2 - O Jogo das Sombras

Não dá pra se sentir enganado ao término de Sherlock Holmes 2 - O Jogo das Sombras. Se você assistiu ao primeiro filme da releitura proposta pelo diretor Guy Ritchie, sabe muito bem o que esperar da continuação, principalmente levando em conta que depois do sucesso do longa inicial, nem a equipe criativa e, principalmente, o estúdio, abririam a mão de uma fórmula que deu certo.

Como no anterior, Ritchie e seus roteiristas, Michele e Kieran Mulroney, pegam detalhes da obra de Sir Arthur Conan Doyle e os unem, transformando-os em meras referências ou em importantes momentos da trama, criando uma história cuja boa parte é inédita, com a já controversa interpretação de Holmes feita por Robert Downey Jr. A divisão de opiniões é simples de ser explicada. O ator em nada se assemelha à descrição do personagem feita por seu criador, é muito mais físico do que os fãs mais puristas gostariam e, numa espécie de "xenofobia justificada" (se é que isso existe), tem de enfrentar as críticas por ser um americano fazendo um dos maiores ícones da literatura inglesa.

Downey Jr. se sai melhor neste longa, principalmente por se distanciar um pouco da caracterização "Tony Stark vitoriano" e se aproximar de uma interpretação mais humana do protagonista. Em vários momentos, Holmes esboça um ou outro sentimentos que não são muito comuns à ele e isso traz um certo grau de novidade à fita, principalmente quando contracena com seu parceiro de aventuras, o Dr. Watson, novamente vivido por Jude Law, que entrega com a mesma competência da primeira parte, o personagem que menos foi alterado por essa versão repaginada.

Por sorte, moldar Sherlock Holmes para uma nova audiência não significou diminuir a inteligência, nem do personagem, nem do público. Claro que está longe de ser cerebral, mas pelo menos e, talvez, mais importante, não menospreza a audiência, embora haja uma mania um tanto incômoda de estender demais algumas explicações.

Desta vez, até pra criar a ilusão de uma fidelidade maior (levada até as últimas consquências, no desfecho), Holmes e Watson enfrentam seu maior inimigo, o Professor Moriarty, interpretado por Jared Harris, ótimo como o equivalente em inteligência ao detetive e que aqui é também um desafio físico, já que, assim como Holmes, Moriarty se destaca por ser campeão de boxe.

A trama, original, embora recheada de elementos do conto O Problema Final, é o mais próximo que Sherlock jamais chegou de uma aventura de James Bond, com direito a paisagens além de Londres, como França, Alemanha e Suíça. Moriarty também é um típico vilão de 007, com um plano para colocar o mundo em guerra simplesmente para garantir a venda de mais armas. O Professor com certeza era a leitura preferida de Auric Goldfinger, do clássico livro do Agente Secreto Mais Famoso do Mundo.

Outras duas adições ao elenco são Stephen Fry e Noomi Rapace. O primeiro vive o irmão de Sherlock, Mycroft, tão excêntrico, e inteligente, quanto o detetive. Infelizmente sua participação não é tão grande e a cena que deveria expôr a esperteza do personagem é um tanto "pálida", com um diálogo que não diz muito ao espectador, entregue com rapidez demais, sem dar um tempo maior pra digestão de tudo que é dito. Apesar disso, Fry é muito competente e, mesmo com poucas cenas, consegue marcar sua presença no longa. Já Rapace faz a cigana Simza, que não existe nos livros, e é mais um elemento de roteiro do que um personagem mesmo. Tanto que nem é dada muita atenção ao desfecho da subtrama que envolve seu irmão desaparecido, com um descarte rápido da coadjuvante para que o longa pudesse seguir com seu clímax.

Mais uma vez em parceria com o compositor Hans Zimmer, Ritchie conta com uma ótima trilha sonora que, toda inspirada pela obra de Mozart (Zimmer inclusive utiliza momentos de Don Giovanni na partitura), parece contribuir pro cineasta compor uma "sinfonia de destruição", que tem seu ápice em uma sequência de ação nas florestas alemãs. Apesar do exagerado slow motion, as cenas são de uma beleza distorcida, já que os melhores frames são aqueles que exaltam estilhaços de madeira, pólvora e metal.

No mais, o longa não inova e segue à risca a cartilha do primeiro filme. Se por um lado isso é bom, pois garante um nível de diversão pra agradar a maior parte dos espectadores, também pode surgir como um presságio de um futuro não muito promissor. Se continuar repetindo apenas o que funciona, sem acrescentar nada novo, a franquia pode acabar se tornando tão cansativa quanto uma outra que havia começado muito bem e perdeu completamente o rumo, logo no segundo exemplar. Ainda é cedo pra comparar Sherlock Holmes com Piratas do Caribe e, pro bem do entretenimento de qualidade, tomara que isso nunca seja preciso.
Continua...
 
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