Crítica: Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança

Nicolas Cage deve ser o ator menos preocupado com os tipos de filmes relacionados a sua imagem. Pra cada boa produção que atua, existem pelo menos umas dez ruins. Entre elas está o primeiro Motoqueiro Fantasma, adaptação do anti-herói da Marvel, que tinha em cada cena, um momento de vergonha alheia protagonizado pelo artista. Tudo graças à forma cartunesca que Cage encontrou pra viver Johnny Blaze. Fracasso de bilheteria e crítica, era quase impossível alguém em sã consciência dar sinal verde para uma continuação. Quase, pois, contra todas as expectativas, estreou neste final de semana, Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança.

O longa, para o grande público, pode dar a impressão de sequência, afinal o ator principal é o mesmo, mas funciona muito mais como reboot. A começar pela origem do personagem, contada em off nos créditos iniciais, ligeiramente diferente do que é mostrado no primeiro filme. De duas, uma: ou o estúdio tem a completa consciência de que o original era tão esquecível a ponto do espectador não se lembrar da história, ou a ideia era mesmo indicar que Espírito de Vingança é um reinício. De qualquer forma, a pergunta que realmente interessa é "o novo é melhor que o anterior?". De modo geral, sim, embora seja difícil imaginar o grau de incompetência se fizessem algo pior, mas isso não significa que os fãs do personagem poderão apreciar um bom filme.

A trama é tão rasa que qualquer informação a mais entrega praticamente tudo que acontece durante os 95 minutos. Basicamente, Blaze é procurado por Moreau, um padre motociclista e alcoólatra interpretado por Idris Elba, para resgatar um garoto, Danny (Fergus Riordan) antes que este seja usado num ritual promovido pelo Diabo em sua forma humana, vivido por Ciarán Hinds. Cage deixa de lado boa parte dos maneirismos bobos de sua primeira interpretação do personagem, e, embora crie outros igualmente vergonhosos (em menor quantidade, para sua defesa), convence mais com a abordagem amargurada que confere a forma humana do Motoqueiro Fantasma. Elba transborda carisma e em determinados momentos até disputa a posição de protagonista, principalmente na sequência inicial. E Hinds parece se divertir com as tolices proferidas por seu vilão, numa amostra de como a produção é autoconsciente de sua natureza galhofa.

O roteiro, de Scott M. Gimple e Seth Hoffman, lança mão de algumas liberdades quanto a adaptação. Um bom exemplo disso está logo no inicio, quando o Motoqueiro é mostrado de forma mais frágil, sendo derrotado por um grupo de sequestradores de forma até banal. A cena talvez tenha como função, rebater algumas críticas ao filme de 2007 que em momento algum mostrava um desafio à altura do personagem. A grande novidade aqui, contudo, é o fato do amaldiçoado protagonista conferir a qualquer veículo que dirige, o poder infernal de sua moto, gerando uma das sequências mais interessantes da fita, graças a dois fatores que são fundamentais para esta adaptação funcionar de alguma forma. Os competentes efeitos especiais, que estão presentes até nos mínimos detalhes (reparem em como a jaqueta usada por Cage se comporta quando o ator assume a personalidade do Motoqueiro), e a direção, sempre disposta a criar uma cena de ação melhor que a outra.

Dirigido por Mark Neveldine e Brian Taylor, a dupla responsável pelos dois Adrenalina, Motoqueiro Fantasma - Espírito de Vingança tem tudo pra agradar quem já conhece o estilo inquieto dos cineastas. As cenas movimentadas são o ponto alto do filme, muito bem coreografadas, sejam nas perseguições automotivas ou nos vários tiroteios que acontecem durante a projeção. Neveldine e Taylor são muito talentosos em conseguir colocar a câmera em lugares incomuns sem prejudicar a noção espacial. Além disso, mesmo abusando das imagens gravadas na mão, tudo que acontece, por mais frenético que seja, é compreendido plenamente pelo público, ao contrário do que pode ser visto em alguns filmes de ação recentes como Conan - O Bárbaro, por exemplo.

É graças ao comando da dupla, portanto, que Espírito de Vingança se torna um bom guilty pleasure. Consegue divertir e atingir seu objetivo, mesmo sendo bobo e sem muito a acrescentar quando o assunto é a história. O argumento de David Goyer gera um daqueles enigmas sem resposta que os cinéfilos já se acostumaram a encarar: como a pessoa responsável pela trama de Batman Begins consegue criar algo tão genérico para outras adaptações em quadrinhos? Goyer também levou aos cinemas as bombas Blade Trinity e O Corvo - Cidade dos Anjos, aumentando ainda mais o mistério que é sua criatividade.

Mas, enigma por enigma, Nicolas Cage permanece o maior de todos. Estaria ele fazendo os filmes que gosta de fazer, ou seu discernimento quanto ao que pode ou não ser bom simplesmente não existe? Seja qual for a resposta, pelo menos dessa vez o erro não foi tão grande.
Continua...
 
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