Aerosmith em São Paulo 2011 - Same (Good) Old Song and Dance

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  • quinta-feira, 3 de novembro de 2011
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  • Mauro A. Barreto
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  • Como já comentamos na segunda edição de nosso (novo) podcast, o Brasil virou mesmo um dos principais destinos para as turnês de bandas internacionais na última década. Bandas que outrora raramente cogitavam pisar aqui acabaram virando figurinha carimbada. Exemplo disso é o Aerosmith, cuja primeira passagem pelo Brasil foi em 1994, na turnê do disco Get A Grip, e que depois disso só voltou em 2007, em um show lotado no Morumbi, com abertura do Velvet Revolver. Um intervalo de mais de dez anos entre um show e outro.

    Mas depois de sua segunda apresentação no país, a banda pareceu ter se empolgado, e voltou novamente em 2010, para mais um show homérico em São Paulo. E, para a surpresa de todos, voltaram novamente este ano para um show no último dia 30, véspera de Halloween, na Arena Anhembi, se tornando praticamente um Iron Maiden (ok, difícil chegar ao nível “prata da casa” do Iron) em frequência em nosso país.

    Tive a oportunidade de comparecer aos três últimos shows (2007, 2010, 2011) e posso dizer que os caras simplesmente não deixam a peteca cair. Conhecidos como uma das bandas mais icônicas e proeminentes do rock n’ roll americano, o Aerosmith faz parte daquela categoria abençoada de bandas cujos integrantes parecem não perder o fôlego mesmo com o envelhecimento – e isso frequentando já a casa dos sexagenários.

    Isso ficou comprovado no show do último domingo, que faz parte da turnê Back on the Road, que celebra justamente a condição privilegiada que o Aerosmith tem, de ser uma banda de 40 anos (o primeiro álbum é de 1973, mas a banda foi formada anos antes disso) que ainda conta com sua formação original – e muitos sucessos para ilustrar essa longa história. A turnê resgata justamente os sucessos dos primeiros 20 anos da banda, de 73 a 93, abrindo uma exceção para o maior hit do grupo, “a música do Armageddon”, lançada em 1998.

    Debaixo de uma chuva oscilante e temperamental que cobria São Paulo durante o dia todo e não dava sinais de que iria embora, a banda começou o show cerca de meia-hora depois do horário programado (20h), o que pode ser considerado algo bastante pontual para um show de rock. Dispensando uma banda de abertura – para a felicidade de muitos – o anúncio de que o show ia começar ficou por conta da Cavalgada das Valquírias (nota: ainda não acredito que vi um grande portal confundindo essa música com o tema do Darth Vader em uma resenha do show), que ecoava pelos alto-falantes da arena deixando todos ansiosos.

    Logo em seguida a banda já entra de cara executando uma trilogia de clássicos dos anos 70: Draw The Line, Same Old Song and Dance e Mama Kin – música que nunca havia sido tocada no Brasil, e que fez a alegria dos fãs, já nos seus característicos acordes iniciais. Mostrando total entusiasmo, Steven Tyler animava o público como só ele sabe fazer, dançando para lá e para e cá no palco, e brincando com artefatos jogados pelo pessoal da pista VIP, como uma boneca inflável e uma toalha branca, na qual ele se enxugou fanfarronamente e atirou de volta. Nem parecia que tinha quebrado dois dentes alguns dias antes, a não ser por um hematoma que ainda era visível em seu rosto, se alguém parasse para prestar atenção.

    Na sequência, vieram dois hits da fase “pós-queda-e-retorno-graças-ao-Run-DMC”: Janie’s Got a Gun e Livin’ On the Edge – músicas que todos adoram acompanhar cantando os refrões e parar de pular para apreciar os solos. Aliás, Joe Perry inovou com relação à execução dessa música que vinha sendo feita nos últimos anos, deixando de lado sua guitarra de braço duplo. Nessa turnê, aliás, o Guitar Hero resolveu tirar a poeira de sua coleção de guitarras (é dono de cerca de 600) e tocou na maior parte do show modelos Fender, deixando de lado suas características Gibson Les Paul e semiacústicas.

    Chegava a vez de Joey Kramer brilhar com seu solo de bateria old-school, no melhor estilo Led Zeppelin. Aliás, bem no estilo Led Zeppelin mesmo, pois depois de algum tempo começava a se tornar algo monótono, quando Kramer surpreendeu (menos a quem já o havia presenciado fazer a mesma coisa no ano passado) deixando de lado as baquetas e dando o ritmo com socos na bateria – o que serviu para mostrar que energia e feeling superam virtuosismo. Enquanto o baterista terminava seu solo, a lapsteel guitar de Perry era posicionada no palco, o que já deixava claro para os fãs (ou para quem jogou Guitar Hero Aerosmith) qual seria a próxima música: a dançante Rag Doll, que Perry toca dedilhando e deslizando um slide no instrumento típico de música country e blues.

    Mais uma ressurreição no repertório veio em seguida: a balada de superação pessoal Amazing, que só havia sido tocada no Brasil no encerramento do show de 94, portanto inédita para a maioria do público presente. Quem sabia a letra cantava junto os emotivos versos e Perry destruiu com o longo e frenético solo final. Em seguida, Tyler ocupou sozinho a ponta da passarela central, cantando junto com o público as primeiras estrofes da bonita What It Takes, com a banda entrando subitamente no refrão, como costumam fazer em shows.

    Então era a vez do “outro guitarrista”, Brad Whitford brilhar, demonstrando sua pegada 100% hard rock em um solo que serviu de introdução para Last Child, clássico do disco Rocks, de 1976, considerado um dos mais agressivos do Aerosmith. Essa poderia ter sido a única música do álbum a figurar na setlist da noite, mas a banda surpreendeu aos fãs na sequência, com uma execução diferente de Combination, cantada unicamente por Perry (no álbum ela é cantada em dueto com Tyler). Infelizmente, como costuma acontecer no momento “Perry vocalista” dos shows no Brasil, a música não empolgou tanto a maioria do público, mas serviu como um grande presente aos fãs hardcore.

    Em seguida, veio o momento sacarose braba com “a música do Armageddon”, cantada a plenos pulmões por todas as garotinhas presentes, com direito a casais se beijando e aquela coisa toda, seguida pela “música de corno” Cryin’, que sempre se destaca devido ao solo de gaita de Tyler no final – a propósito, único momento em que ele tocou gaita nesse show. Depois de aumentar a taxa de glicose no sangue, o público presenciou o solo de baixo de Tom Hamilton, com seu baixo purpurinado, emendando o emblemático riff de Sweet Emotion, que encerrou de forma nervosa o show – antes do bis, é claro.

    Era hora de esperar pelo retorno da banda. Se tem uma coisa em que a produção do Aerosmith capricha nos shows são as animações no telão, sempre bem humoradas, e dessa vez não foi diferente. Antes do início do show e do encore, era exibida uma colagem de vídeos simulando canais de televisão sendo zapeados, com cenas de bastidores da banda, desenhos animados antigos e outras imagens aleatórias. O engraçado mesmo dessa vez foi a inclusão de um gol da seleção de futebol argentina, que provocou a vaia dos brazucas. Mas tudo bem, todos estavam se divertindo, e se alguém ficou realmente ofendido provavelmente esqueceu assim que as primeiras notas de Dream On saíram do teclado do músico de apoio Russ Irwin. A épica balada envolveu a todos, seguida das agitadas Love in an Elevator e Walk This Way – que Joe Perry tocou com uma certa dificuldade, depois de ter esfolado o dedo durante o solo final de Elevator, mostrando inclusive o dedo ensanguentado para a câmera. Rock N’ Roll!

    Mas ainda não era o fim! Empolgados, “os Aerosmith” (como diriam os portugueses) resolveram atender ao pedido de fãs que seguravam faixas com o título da música Angel na pista VIP e resolveram tocar de improviso a balada que não era executada em shows desde 2005. O resultado foi bonito, com Tyler cantando certinho a letra acompanhado pelo público, e somente uma compreensível escorregada de Perry no início do solo. Ainda no calor do momento, o público brasileiro ganhou mais uma música inédita por aqui: Train Kept A Rollin’, cover que costuma encerrar os shows do grupo nos Estados Unidos, e que embalou mesmo quem não conhecia a empolgante canção cuja versão do Aerosmith pode ser considerada praticamente a definitiva.

    A chuva passa, a banda se despede, e todos terminam a noite felizes, prontos para encarar mais uma semana de trabalho, com direito a feriadinho no meio para relembrar o show, como estou fazendo agora. E que venha o novo álbum de músicas inéditas e novas visitas dos “Bad Boys from Boston” por aqui!


    SETLIST:

    Intro: Ride of the Valkyries (Richard Wagner)

    1. Draw the Line
    2. Same Old Song and Dance
    3. Mama Kin
    4. Janie's Got A Gun
    5. Livin' on the Edge
    6. Drum Solo
    7. Rag Doll
    8. Amazing
    9. What It Takes
    10. Last Child
    11. Combination
    12. I Don't Want To Miss a Thing
    13. Cryin'
    14. Sweet Emotion

    Encore:

    1. Dream On
    2. Love in an Elevator
    3. Walk This Way

    Encore 2:

    1. Angel
    2. Train Kept A-Rollin' (Tiny Bradshaw cover)

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