Crítica: Os Agentes do Destino

De acordo com Peter Parker no primeiro filme do Homem-Aranha, "toda história que mereça ser contada acontece por causa de uma garota". É mais ou menos partindo dessa premissa que Os Agentes do Destino adapta, com muita liberdade criativa, um conto meio obscuro de Philip K. Dick. Dirigido por George Nolfi, o longa chama atenção por sua união de Ficção Científica e Romance, não necessariamente nessa ordem, e funciona também (quando não parte pro didatismo) ao discutir uma das questões mais polêmicas da existência humana: o livre arbítrio, ou a ilusão dele. Mesmo de forma fácil de ser digerida, Os Agentes... não perde tempo em jogar no espectador algumas boas perguntas que envolvem religião e filosofia.

A história coloca Matt Damon como David Norris, um jovem e promissor político que almeja uma cadeira no Senado americano pelo Estado de Nova York. Apesar de liderar as pesquisas, sua campanha sofre um baque com uma matéria de jornal que revela um lado agressivo e impulsivo de sua personalidade. No dia de sua derrota, encontra, no banheiro masculino de um hotel, a bela Elise, bailarina vivida por Emily Blunt. Embora a atração de um pelo outro seja mútua, por uma fatalidade, ele não pega sequer o nome da moça e ambos não voltam a se encontrar por mais alguns meses. É quando o acaso os une pela segunda vez que a vida do político vira de ponta-cabeça. Perseguido por estranhos homens de chapéu, David é apanhado e recebe o aviso: "pare de procurar por essa garota, vocês não devem ficar juntos". Todo mundo sabe que se você quer manter uma criança longe de um bolo nunca deve dizer: "não mexa aí". Mesmo com a demonstração de poder dos Agentes do título, o político se mostra firme em ignorá-los.

A partir daí, o roteiro, também de Nolfi, busca apresentar um texto que a todo momento confronta o público com ideias muito interessantes a respeito de destino, acaso e livre arbítrio e joga com o conceito de uma força superior que não se sente confiante o bastante pra deixar a humanidade caminhar sozinha. Esse subtexto, digno das melhores obras de Philip Dick, seria muito melhor se não fosse jogado de forma tão irregular. Em determinados momentos a discussão é sutil e funciona muito bem. Porém, alguns diálogos parecem brincar com a inteligência do espectador, como se tudo fosse muito complicado. Mesmo que fosse, não há nada demais em colocar uma semente de discussão na massa, sem precisar de muitas explicações. A escolha de inserir uma narração no final é um desses escorregões. O recurso não havia sido usado até então, e mesmo que não fosse completamente desnecessário, causaria estranheza por estar deslocado no filme.

Dotado de boas atuações do casal protagonista, que mostra uma química convincente em tela, Os Agentes do Destino, porém, não conta com grandes momentos cinematográficos, até porque é o primeiro filme de Nolfi como diretor. O maior feito visual do longa está nas sequências de perseguição, que envolvem bons efeitos que se tornam orgânicos à trama, muito parecido (mas não no mesmo nível de qualidade) com o resultado que Christopher Nolan conseguiu em A Origem.

A trilha sonora, por outro lado, merece destaque. Thomas Newman une orquestra com guitarras, bateria e piano, em peças musicais muito efecientes em criar a atmosfera do cotidiano de Norris e Elise. Ao mesmo tempo, os temas de ação fogem da regra atual ditada por compositores como Hans Zimmer, por exemplo. Há ainda duas músicas de Richard Ashcroft, vocalista da banda The Verve. Ao contrário de seu grupo músical, Ashcroft não tenta soar como um Oasis genérico e mostra grande evolução desde que apresentou ao mundo o sucesso dos anos 90, Bitter Sweet Symphony.

O resultado final é um longa acima da média dos filmes de verão, por ser voltado a um público mais maduro, mas que infelizmente fica apenas na vontade de se tornar uma grande obra do gênero. Levando em conta a definição do herói aracnídeo da Marvel, sobrariam motivos para que Os Agentes de Destino fosse um filme melhor, por se tratar de um belo romance. Infelizmente, o diretor/roteirista mostra ter o mesmo problema do Presidente da Agência do Destino, ou seja, é inseguro quanto a capacidade da audiência em conseguir entender sua mensagem sem um empurrãozinho. Com um ato bobo, Nolfi não invalida por completo sua obra, mas com certeza a impede de se tornar algo mais memorável e relevante.

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Para conhecer outra obra de Philip Dick adaptada ao cinema, com muito mais qualidade, clique aqui e veja o Especial Blade Runner.
Continua...
 
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