Baú do RE-ENTER: O Terceiro Homem (1949)

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  • segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
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  • Alexandre Luiz
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  • A maior qualidade de O Terceiro Homem talvez não resida na incrível direção de fotografia, nas ótimas interpretações ou no comando do longa, a cargo do competente cineasta Carol Reed. O que faz este filme de 1949 ser fascinante até hoje é que, embora se passe num período importante da história recente, na Viena pós-Segunda Guerra, não há nenhum sinal de ter se tornado obsoleto pela idade. O Terceiro Homem, com sua discussão acerca do lucro às custas de vidas inocentes, sempre será atual, seja quando da destruição e da pobreza que surgem num momento de conflito ou simplesmente pela exploração de países subdesenvolvidos.

    Assistir ao longa com esse pensamento ajuda na compreensão do mundo movido pelo dinheiro. Claro que em O Terceiro Homem esse lucro é mostrado como um crime, já que envolve remédios falsificados e vendidos no mercado negro, mas não é difícil traçar um paralelo com um thriller mais recente como O Jardineiro Fiel, que também tinha como pano de fundo vidas humanas desrespeitadas a troco do lucro envolvendo medicamentos, mas de uma forma mais perturbadora, uma vez que neste último era o próprio laboratório o responsável. Outra diferença também está no fato do roteiro do filme de Reed se desenvolver de uma forma muito mais leve, se permitindo, inclusive, a usar do humor (de forma muito sofisticada) em alguns momentos. Isso se deve a Graham Greene, que criou e roteirizou a história (e depois a adaptou no formato de livro) como uma espécie de sátira ao que estava acontecendo na Europa naquele momento e de como a intervenção norte-americana não estava melhorando a situação.

    O filme começa com a chegada a Viena do escritor Holly Martins (Joseph Cotten), a convite do amigo Harry Lime (Orson Welles), que havia lhe feito uma proposta de trabalho. O problema é que Martins chega apenas para descobrir que Lime acabara de morrer. Pra piorar a situação, um policial inglês, Calloway (Trevor Howard), e seu assistente, Paine (Bernard Lee, o primeiro M dos filmes do 007), começam a persegui-lo atrás de respostas sobre o envolvimento do personagem de Welles com o mercado negro. O protagonista obviamente não sabe nada sobre isso, mas começa a investigar o que está acontecendo para, pelo menos, tentar descobrir a verdade sobre seu amigo.

    É muito inteligente como a maré de azar que acomete Martins é prenunciada logo em sua segunda cena em Viena. Antes de entrar no prédio onde Lime mora, o escritor passa por baixo de uma escada, sem se dar conta. E a tomada é feita de forma sutil, sem chamar a atenção para o fato, mostrando-o como algo trivial. Uma brincadeira visual típica de alguns diretores ingleses (Alfred Hitchcock fazia esse tipo de coisa o tempo todo) e que dá ao longa a medida certa de ironia para que não se torne cansativo, mesmo para quem não está acostumado ao cinema da metade do século passado.

    Outro estímulo visual, desta vez sob responsabilidade do diretor de Fotografia Robert Krasker (que levou o Oscar por este trabalho) é a escolha de várias tomadas com a câmera inclinada, ou "ângulo holandês". Usada para valorizar os amplos cenários, essa técnica também representa a quebra de expectativas e a crescente paranoia que passa a envolver o protagonista, ajudando o espectador a compreender a angústia de Martins conforme passa a descobrir os negócios sombrios de Lime. Falando em sombras, Krasker também auxilia a narrativa com a iluminação, fazendo prevalecer muito mais o que não é iluminado, numa nítida inspiração expressionista.

    O Terceiro Homem também ficou conhecido por sua trilha sonora, executada apenas em uma cítara pelo músico Anton Karas. A escolha é incomum, já que para thrillers de espionagem da época, grandes orquestras eram responsáveis pela execução da música, mas funciona tanto para dar ao longa uma enorme impressão de realidade, por não ficar presa ao convencional e se basear num ritmo regional austríaco, quanto para que a audiência tenha a mesma noção de "peixe fora d'água" do protagonista, preso a uma terra estranha.

    Mas, como dito logo no primeiro parágrafo o longa de Carol Reed nunca ficará velho por sua ácida compreensão da natureza humana. E o diálogo entre os personagens de Cotten e Welles na roda gigante é o maior exemplo disso. Quando Lime explica suas intenções, o texto não esconde que aquele homem é completamente movido pelo dinheiro e pelas circunstâncias criadas pelo próprio cenário em que se encontra. Mesmo com 63 anos de idade, a visão de mundo passada por O Terceiro Homem é assustadoramente atual.

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