Crítica: Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

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  • sábado, 28 de janeiro de 2012
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  • Alexandre Luiz
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  • Lisbeth Salander é uma personagem fascinante. Seja psicologicamente, e como se encaixa na trama de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (e de toda a trilogia Millennium) ou como desafio para quem a interpreta. Na versão sueca das adaptações da obra de Stieg Larsson, foi Noomi Rapace quem se transformou na problemática e inteligentíssima protagonista. Agora, no longa hollywoodiano comandado por David Fincher, a atriz Rooney Mara desaparece para dar lugar a sua versão de Salander, em uma interpretação singular e arrebatadora.

    A diferença entre os dois filmes é relativamente simples. A versão sueca não era nada mais que uma boa sessão do Supercine. Uma história sobre um serial killer e a investigação para pegá-lo contada de forma convencional por seus realizadores, que em nenhum momento demonstram vontade em entregar algo além disso. Já o novo trabalho de Fincher é exatamente o que poderíamos esperar de um cineasta que, embora possa ser considerado autoral, já que há vários temas recorrentes em sua filmografia e é dotado de um estilo muito próprio, tem abraçado alguns projetos "de estúdio" sem sentir medo de deixar sua marca em cada um deles.

    E não há como negar. Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é um filme tipicamente "Fincheriano". Por sorte, o material original do escritor sueco carrega vários elementos familiares ao diretor, fazendo a adaptação soar muito mais natural ao seu estilo. Do clima opressivo, aqui passado pelo pesado inverno sueco, num espelho da chuva que nunca para de cair na metrópole onde se desenrola a trama de Se7en, segundo filme do cineasta, até um crime há anos sem resolução, como em Zodíaco, motivos não faltam para Fincher se sentir em território seguro e comandar a obra como um trabalho seu.

    A trama começa com Mikael Blomkvist (Daniel Craig) perdendo uma ação de difamação por uma matéria de sua revista Millennium em que acusa o dono de uma grande corporação de vários crimes. Perdendo sua credibilidade e auto-estima, acaba aceitando o convite do milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer) para investigar o desaparecimento de sua sobrinha Harriet, um mistério que assombra sua família há mais de 40 anos. Ao mesmo tempo, o espectador acompanha a vida de Salander. A garota é considerada mentalmente incapaz de se sustentar pelo Governo sueco, já que demonstra um comportamento anti-social latente e por atos de seu passado. Em contrapartida, Lisbeth possui enorme inteligência e usa seus talentos como hacker em uma empresa de investigação, onde um de seus trabalhos foi justamente criar um relatório sobre a índole de Blomkvist. Quando o jornalista percebe que o caso da família Vanger está complicado demais para ser resolvido sozinho, ele procura a ajuda da personagem de Mara e finalmente os caminhos de ambos se cruzam.

    É interessante a forma como o roteiro apresenta os personagens principais paralelamente. Até metade da projeção, existem duas tramas ocorrendo. Enquanto Blomkvist tenta desvendar o desaparecimento de Harriet, Lisbeth está num dos piores momentos de sua vida, sendo abusada por quem deveria lhe dar suporte. A jovem hacker, de aparência andrógina, é uma personagem tão marcante e complexa que precisa mesmo de mais de 1 hora de filme para ser apresentada corretamente. Assim, quando demonstra traços de sentimentos que não sejam raiva e desdém, o espectador compreende o porquê, da mesma forma que, por viver num mundo onde os homens que conhece tratam o sexo oposto como objeto, aceita a parceria com o jornalista quase de imediato quando ele explica que está tentando encontrar um "assassino de mulheres". Mas tudo isso é do livro e já havia sido mostrado no filme original. Então o que Fincher traz de novidade? Para o diretor americano, já que o "como" é familiar para boa parte dos espectadores, é a "forma" que realmente interessa.

    Para chegar ao resultado desejado, David Fincher contou com a ajuda de velhos conhecidos. Jeff Cronenweth, o diretor de fotografia de Clube da Luta e A Rede Social, é fundamental para definir o tom do longa. A escolha da paleta de cores é um dos pontos altos, saindo do moderno e arrojado em Estocolmo para o frio, branco e, novamente, opressivo clima da cidade onde moram os Vanger. E mesmo o tom amarelado dos flashbacks, apesar de não ser novidade, é usado de forma orgânica a trama, mostrando como a presença de Harriet numa família tão desajustada e de integrantes tão vilanescos, trazia algum conforto para Henrik. Cronenweth também desempenha um trabalho de câmera minimamente planejado, com uma escolha certeira de enquadramentos. Um dos melhores exemplos é a cena que o advogado Nils Bjurman (Yorick van Wageningen) abusa de Lisbeth pela primeira vez. A câmera baixa usada para identificar suas intenções sexuais diminui ainda mais a garota, tornando-a minúscula frente a enorme figura de seu antagonista. Já os editores Kirk Baxter e Angus Wall, parceiros de Fincher desde Zodíaco, ditam o ritmo com cortes rápidos que acontecem sempre que devem acontecer. Nunca fica a impressão de que uma cena se estendeu além do que deveria e o timing de ambos para a mudança entre um take e outro é perceptível principalmente quando há a alternância de acontecimentos no presente com cenas do passado.

    Quem também retorna depois da bem sucedida parceria de A Rede Social é Trent Reznor, que, novamente com Atticus Ross (a dupla levou o OSCAR 2011 pela trilha do filme sobre o Facebook), usa do minimalismo para criar a música do longa, várias vezes se confundindo com o som do próprio ambiente, de tão imersivo o trabalho de ambos.

    Voltando a versão de Rooney Mara para Salander, vale ressaltar como a personagem representa a rebeldia contra o establishment, já abordada por Fincher em Clube da Luta. Sua recusa em não ser "normal" incomoda quem está ao seu redor, principalmente pois, obviamente contra sua vontade, está sempre cercada por representações do velho, do retrógrado. Dessa forma, sua atração por Blomkvist é completamente justificada pela natureza mais liberal do jornalista interpretado por Craig. Assim como não há o choque do estranhamento quando os dois protagonistas se encontram pela primeira vez. Embora ele já tenha uma idade mais avançada, não é conservador, o que por si só já atrairia a atenção de alguém cansado de viver à margem simplesmente por não seguir convenções da sociedade.

    Aliás, "o velho e o novo" é o tema que permeia a trama, seja do ponto de vista de Lisbeth, nas motivações do serial killer ou nas divergências entre os membros dos Vanger. E como a história se passa onde o nazismo deixou marcas, a decisão de continuar na Suécia foi acertadíssima, mesmo com o elenco formado em sua maioria por americanos e ingleses. No fim, a obra de Larsson tinha mesmo o tom de crítica a um lugar que se envergonha de seu passado Hitlerista. Por isso a escolha de uma família tradicional, que ajudou a desenvolver aquele país, é tão relevante não apenas para a trama, mas também para o público sueco.

    Como obra cinematográfica a versão de Fincher é infinitamente superior à sua contraparte original. Seja pelas interpretações (cada um dos atores se encontra muito à vontade em seus papéis) ou pela técnica, tudo no novo longa é melhor representado, tornando a nova produção não apenas uma adaptação competente do material literário, mas uma adição à altura dos trabalhos anteriores de um dos cineastas mais celebrados de sua geração. Quanto a Lisbeth Salander, a entrega de Rooney Mara (física e psicologicamente) faz com que a passagem da estranha personagem pelo cinema marque a sétima arte contemporânea como uma tatuagem a ser exibida com muito orgulho.

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