Crítica: John Carter - Entre Dois Mundos

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  • sábado, 10 de março de 2012
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  • Alexandre Luiz
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  • Adaptar para o cinema uma obra influente é um dos grandes desafios de qualquer roteirista, depois herdado à equipe de produção e mais tarde, passado às mãos do diretor. E John Carter - Entre Dois Mundos ou, mais precisamente, Uma Princesa de Marte, é uma das mais importantes obras da literatura de ficção científica. Escrito por Edgar Rice Burroughs, antes de criar Tarzan, o livro gerou mais 10 continuações, além de ter deixado, como legado, a inspiração pra inúmeras outras histórias como a trilogia original de Star Wars e o recente Avatar, de James Cameron. Por isso, fazer a passagem do papel para a telona exigia não só enorme responsabilidade, já que isso envolve profissionalismo, mas algo mais, que fosse além. Adaptar John Carter exigia respeito e, por mais piegas que isso possa soar, carinho pelo material original. Sorte que o trabalho ficou à cargo de Andrew Stanton e seus companheiros da Pixar.

    Uma Princesa de Marte foi um projeto que ficou anos tentando ver a luz do dia mas que, por diferentes motivos, sempre encontrava dificuldades pra ser realizado. Seja por orçamento apertado ou pelo estúdio não acreditar em seu potencial, a obra de Burroughs foi sendo deixada a escanteio, mesmo despertando interesse de cineastas como Robert Rodriguez e Jon Favreau. Quando a Disney anunciou a produção de John Carter, a notícia, no entanto, foi recebida de forma morna, pra não dizer com um toque de gelo. A verdade é que, embora extramamente bem sucedida em animações, os filmes live action da Casa do Mickey não tem tido a mesma sorte nos últimos anos. A única amostra do sucesso financeiro neste caso é a franquia Piratas do Caribe, que mesmo levando muita gente pro cinema, passou a perder cada vez mais o apoio da crítica especializada, responsável por receber caloramente o primeiro filme, mas também por desprezar com enorme frieza os dois últimos, graças a vertiginosa queda de qualidade dos roteiros. Por isso, a dúvida pairava no ar se a Disney seria mesmo o estúdio mais indicado pra transformar em realidade o sonho de muitos fãs de John Carter: ver suas aventuras mostradas com competência nos cinemas.

    O filme tem problemas, é bom salientar. Não é perfeito, nem mesmo uma obra-prima. Porém, isso não tira os méritos do longa dirigido e co-roteirizado por Andrew Stanton, uma das mentes por trás da Pixar e de filmes como Wall-E e Procurando Nemo (estes sim, geniais), que nesta produção entrega um trabalho não apenas fiel à criação de Edgar Rice Burroughs, mas que também, e talvez até mais importante, expressa uma enorme fidelidade ao espírito, à alma do material usado como base. Porque de nada adiantaria um filme cuja trama fosse a mesma do livro mas que não conseguisse passar ao espectador toda a noção de aventura, de descoberta e de romance ali impressa. John Carter tem tudo isso e se orgulha do fato.

    Como a Pixar se tornou notória por sua preocupação em criar histórias marcantes, o roteiro tinha de fazer jus à essa fama e graças a Stanton, Mark Andrews e Michael Chabon, o faz. Primeiro pelo flerte com a metalinguagem, mostrando no início o jovem Edgar Rice Burroughs (Daryl Sabara) lendo o diário de Carter (Taylor Kitsch), seu tio, recentemente falecido. É através dessa leitura que a história é contada, tal qual no livro original. Essa forma de apresentar a trama não é apenas uma bela homenagem, mas também um elemento cuja importância será revelada mais à frente, fazendo com que nada em John Carter seja por acaso. Tudo ali é importante, como o, relativamente longo, início na Terra (mas nunca cansativo), mostrando o personagem negando a todo custo voltar ao exército para caçar índios, e assim revelando sua índole que, ao mesmo tempo parece ser boa, por ir contra um possível massacre, e egoísta, por dar a entender que, na verdade ele não está interessado em lutar por ninguém, apenas por si. Nesta primeira parte do filme, o básico sobre Carter é apresentado, de sua personalidade a uma de suas principais motivações, mas é ao longo da trama que tudo é aprofundado, seja em suas aventuras em Marte, que ajudam a moldar o futuro herói, ou por rápidos flashbacks, que auxiliam o espectador a compreender melhor seu passado. Destaque também para a forma como o texto dá abertura a sequências ao mesmo tempo que funciona de forma isolada.

    No entanto, o roteiro não favorece a Princesa Dejah Thoris (Lynn Collins), que não se conecta de forma convincente com o público (o que seria fundamental para um maior envolvimento com a trama) e fica dividida entre o papel de "mocinha indefesa" com o de "guerreira", coisa que não faz muito sentido, por mais abalado o psicológico da moça, forçada a um casamento indesejado com o líder rival de seu povo, Sab Than (Dominic West). Apesar disso, Collins faz um trabalho decente, assim como boa parte do elenco de apoio, principalmente o de vozes. Willem Dafoe como Tars Tarkas, o líder dos marcianos Thark, rouba a cena, principalmente quando fala na língua nativa do planeta. E o personagem que dubla é extramente convincente, por ser gerado 100% via computação gráfica. Mark Strong, ator que está se especializando em interpretar vilões, faz aqui o manipulador líder dos Therns e se diverte com o papel, principalmente num diálogo com o protagonista. E Kitsch aproveita muito bem o material que tem em suas mãos, fazendo de seu John Carter um herói complexo, amargurado por acontecimentos no passado e que precisa encontrar novamente alguma razão pra lutar. É aí que Stanton demonstra muito como compreendeu o que Burroughs criou. Uma Princesa de Marte sempre foi um romance antes de uma trama de aventura e ficção científica e o filme captura isso muito bem. O intérprete do personagem-título abraça sem medo esse espírito ingênuo, mas divertido, reflexo do período da criação da obra, o começo do século XX.

    E por ser uma história tão antiga, é impossível não reconhecer traços que mais tarde foram usados por outros autores. Além das óbvias referências citadas no primeiro parágrafo, uma que chama atenção diz respeito ao efeito de Marte em terráqueos: longos saltos, quase pequenos voos, que Carter é capaz de fazer, além da superforça adquirida remetem imediatamente a um certo super-herói alienígena que ao chegar na Terra passa a possuir habilidades semelhantes. Siegel e Shuster com certeza se inspiraram em Burroughs na criação deste conceito para o Superman.

    Além da boa trama, John Carter é um espetáculo visual. O desenho de produção de Nathan Crowley é um show a parte e busca referências em praticamente tudo que já foi lançado sobre a obra, principalmente as famosas pinturas de Frank Frazetta. E mais, o design é funcional e como os vários elementos do roteiro, não está lá à toa. Tudo faz sentido dentro da física proposta pelo texto, criando uma unidade com a história, de forma bem orgânica. Cada detalhe, cada cenário digital e cada efeito especial nas cenas de ação transformam o filme num programa cujo grande impacto acontece mesmo quando assistido no cinema, numa tela adequada e enorme para destacar o esforço de toda equipe envolvida. Tudo ao som da ótima trilha de Michael Giacchino, uma espécie de união entre Maurice Jarre, John Williams e John Barry.

    Infelizmente a Disney, com todos os acertos ao colocar John Carter nas mãos competentes de Andrew Stanton, cometeu graves erros quanto ao marketing do longa, o vendendo de forma aborrecida, sem dar a atenção que a obra merecia. Péssimos trailers e uma campanha que nunca destacou seus pontos fortes, parecendo a todo momento tentar vendê-lo como uma espécie de Príncipe da Pérsia, não empolgaram o grande público. A salvação do filme, que pode levá-lo a uma continuação, ou mais, está no boca a boca. Tomara que a massa enxergue a qualidade da produção e a trate com o mesmo respeito de Stanton. Só assim a audiência poderá voltar à fantástica paisagem marciana. Seu sucesso será mais eficiente que qualquer artefato para transportar os fãs, mais uma vez, para o mundo de John Carter.

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