Crítica: Drive

Nos anos 70, filmes sobre criminosos mostravam protagonistas diretos, profissionais extremamente competentes no que faziam, independente da natureza dúbia de suas vidas. O universo dessas histórias era o mais sujo e escuro possível, representando, dessa forma, a atmosfera pessimista e cínica daquele período. Na década seguinte os anti-heróis passaram a agir por um código que, na maioria das vezes, os levava a redenção, tudo marcado pela estética exagerada, colorida e pop, tipicamente oitentista. Na época de transição entre estilos, alguns longas mantinham características setentistas ao mesmo tempo em que situavam e preparavam seus personagens para os anos que estavam chegando. Se Drive, dirigido por Nicolas Winding Refn, fosse feito no início dos anos 80, provavelmente seria uma dessas produções, com características híbridas de dois momentos muito importantes para o cinema.

A película mostra um homem sem nome (ele deve ter um, mas nunca é mencionado pelo texto), interpretado por Ryan Gosling, que mantém uma vida dupla. De dia, é um dublê, enquanto à noite, é um motorista de fuga para criminosos. Ao desenvolver afeição por sua vizinha (Carey Mulligan), acaba sendo levado a ajudar o marido da garota, recém saído da prisão, num assalto que dá errado. Agora, além de tentar proteger Mulligan, ele precisa se livrar dos gângsters que passam a persegui-lo, vividos por Ron Pearlman e Albert Brooks.

A trama seria típica de alguns filmes B, mas graças à seriedade com que tanto o cineasta, quanto seu roteirista, Hossein Amini, e seus atores tratam a história, Drive oferece algo mais do que perseguições em alta velocidade e uma violência tão impiedosa quanto um tiro inesperado. Com personagens de arco bem definido e convincentes em suas ações, o longa traz mais momentos introspectivos e dramáticos do que agitados se tornando, assim, um drama de ação, e não o contrário.

Enquanto o texto demonstra sensibilidade, Refn esbanja estilo e junto de seu diretor de fotografia, Newton Thomas Sigel, compõe quadros belíssimos, com o uso muito criativo e eficiente da iluminação, que por mais artificial que possa parecer, é um dos elementos mais importantes da narrativa neste caso, ficando abaixo, talvez, apenas da trilha sonora retrô de Cliff Martinez e seu sintetizador, que parece ter saído direto de alguma produção de Michael Mann dos anos 80. Isso, aliás, leva a uma observação pertinente para a compreensão da obra de Refn. Drive evoca os trabalhos iniciais do diretor de Fogo Contra Fogo a todo instante, principalmente o realizado no filme Profissão Ladrão, de 1981. O protagonista introspectivo, suas regras para que não se comprometa em um "trabalho", a forma obsessiva e meticulosa com que executa sua função fora-da-lei, a já citada trilha sonora e até mesmo a estrutura do roteiro são apenas alguns dos elementos da película de Mann que Refn recicla e se apropria, moldando-os à sua própria forma.

O cineasta busca outras inspirações, assim como seu protagonista, Gosling. Impossível falar de um anti-herói sem nome sem fazer a ponte com o papel que Clint Eastwood interpretou na Trilogia do Dólar, do mestre do western spaghetti, Sergio Leone. O ator, por outro lado, é de uma safra diferente do eterno Dirty Harry. Gosling não hesita ao mostrar um sorriso para Mulligan (mesmo que discreto e um tanto triste). Por outro lado, assusta quando, lentamente, ao longo da projeção, despe-se de sua "máscara" taciturna para revelar sua natureza violenta e brutal, que culmina numa sequência perturbadora em um elevador, dirigida com maestria por Refn, com a escolha que faz de iniciá-la com uma demonstração de carinho para depois fazer o motorista explodir em fúria.

Outra característica louvável de Drive, também oriunda de tempos distantes, é exigir do espectador uma certa paciência para acompanhar a história. Embora não seja lento, o longa de Refn não tem pressa de chegar ao final e não abre mão de cenas intimistas que ajudam a tornar o filme um interessante estudo de personagens. Todos vivem na violência ali, mas enquanto alguns dariam tudo pra sair dela, outros não conseguem se libertar, mesmo que por escolha própria.
Continua...
 
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