Crítica: Jogo de Poder

Durou pouco a desculpa da Casa Branca pra iniciar uma guerra contra o Iraque, logo depois do ataque de 11 de setembro de 2001. O presidente Bush, com seu discurso de "guerra ao terror", veio a público dizer que uma luta era inevitável para a manutenção da paz. Os EUA começaram a sua batalha contra o país de Saddam Hussein com o pretexto de encontrar e neutralizar armas de destruição em massa. A desculpa durou até outras informações começaram a vazar. Fontes da CIA desmentiram qualquer indício de armas nucleares, que de acordo com Bush eram montadas no Iraque. E o governo fez de tudo para abafar e desqualificar qualquer tipo de vazamento por parte de sua agência de inteligência.

O mais absurdo desses casos foi o que deu origem à trama de Jogo de Poder, filme de Doug Liman que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira. Valerie Plame (Naomi Watts) era uma agente da CIA no comando de operações de contra proliferação de armas de destruição em massa. Sua tarefa era a de buscar informações a respeito destas prováveis armas, reunir os fatos e através deles, concluir quais eram verdadeiros ou não. Em uma investigação do tipo, começam a surgir indícios da compra de tubos de alumínio para o refinamento de urânio por parte do governo iraquiano. Como o urânio tinha como provável origem o país africano de Níger, Plame indica seu marido, Joseph Wilson (Sean Penn), diplomata que já havia atuado naquele país para ajudar na investigação. Wilson concorda e também conclui que não há nada que indique a produção de armas nucleares. Algum tempo depois, Bush inicia a invasão ao Iraque, seguindo exatamente o pretexto envolvendo o urânio africano.

Logo no início do longa, Liman coloca o personagem de Penn em situações que confirmam um forte engajamento político do diplomata, assim como grande convicção de seus ideais. Pois é justamente isso que leva Wilson a escrever um artigo para o New York Times com a sua versão dos fatos, causando um grande incômodo para o governo norte-americano. Em uma atitude maquiavélica, a Casa Branca vaza para a imprensa a ocupação de Valerie na CIA, na tentativa de desviar a atenção do público para a vida pessoal do casal.

Responsável por levar Jason Bourne para o cinema, Liman não perde o ritmo ágil de sua câmera nos primeiros 40 minutos do longa. A partir daí, sem quebrar a tensão e sem parecer arrastado, o roteiro passa a analisar mais o lado humano dos personagens e como toda essa reviravolta poderia afetar suas vidas. De thriller político, Jogo de Poder passa para o drama e para o confronto de ideias. Wilson começa uma guerra inconsequente contra a Casa Branca, arriscando sua carreira e levando uma parcela da população a considerá-lo traidor de sua pátria. Plame, agente da CIA há 18 anos não consegue ter a mesma convicção do marido e por um senso de patriotismo distorcido, mantém-se calada a respeito de tudo. Até perceber o ponto onde tudo estava indo longe demais. E é justamente aí que a película encontra sua força, nas relações entre os personagens e nas interpretações de Penn e Watts.

É importante ressaltar que o filme é bem claro em suas mensagens. Não é anti-americano e nem propaganda esquerdista. O fato é que a história em si depõe contra as ações da Casa Branca. Não precisa ser panfletário para causar asco ao mostrar um membro do governo cogitando vazar uma informação que poderia levar até mesmo à morte de uma agente que jurou defender seu país e assim o fez por quase duas décadas. Claro que a extrema-direita americana não recebeu muito bem a produção e tentou desmerecê-la por "exageros" por sua equipe criativa. Ora, não se pode esquecer que se trata de um produto de entretenimento e liberdades são tomadas para efeitos dramáticos. O pano de fundo, porém, muito bem representado por imagens da CNN e outras emissoras de notícias é totalmente verídico.

Por seu segundo ato humanizado, o discurso mais engajado, feito rumo ao desfecho do longa, não parece forçado e entra naturalmente na cabeça do espectador, seja ele tão politizado quanto o personagem de Sean Penn ou não. O controle de informações para desviar a atenção do público não prejudica o poder, ou aqueles envolvidos na história. Prejudica o povo, que aos poucos, conforme o tempo passa, pode começar a se sentir traído por aqueles que foram escolhidos para representá-los. No fim, a mensagem se aplica a qualquer país que queira honrar sua democracia e que não busca ser lembrado por guerras forjadas na mentira e na paranóia de sua população.

Continua...

Crítica: Assassino A Preço Fixo (2011)

Na versão original de Assassino a Preço Fixo, o diretor Michael Winner apresenta o personagem Arthur Bishop de forma espetacular. São 15 minutos sem um único diálogo e que servem para mostrar como o assassino interpretado por Charles Bronson é metódico e "limpo" em suas mortes. Sem precisar de frases de efeito ou alguma cena de ação mirabolante, o espectador capta a essência de Bishop, tornando o restante do longa um bom exemplo de roteiro sem pressa pra contar a história, com a trama evoluindo conforme os acontecimentos, sem nada forçado. Soma-se a isso o subtexto já comentado aqui, o filme original pode não ser uma obra-prima, mas é uma daquelas produções em que se percebe um desenvolvimento e uso de técnicas cinematográficas cada vez mais raras hoje em dia.

O novo Assassino a Preço Fixo, com Jason Statham como protagonista, joga tudo isso pro alto. Embora os elementos de construção do personagem principal estejam lá, graças a falta de uma forma mais natural de apresentá-los, eles surgem brusca e gratuitamente na tela, quase subestimando o poder de dedução de quem assiste.

A trama é basicamente a mesma. Bishop é um assassino de aluguel que vê no filho de um antigo amigo a chance de treinar um substituto (vivido agora por Ben Forster).

Quem dirige é Simon West, um cineasta sem grandes qualidades a não ser criar boas cenas de ação. Nisso, o filme não faz feio, embora demore um pouco a engatar sua primeira sequência mais movimentada. Vale destacar também a fotografia que reforça cores quentes e até adiciona um granulado emulando um pouco o visual setentista. O problema de Assassino... está nas conveniências do roteiro. Se na versão original, o diretor prefere não mostrar a cena de sexo de Bronson com uma prostituta, aqui, ela aparece de forma selvagem e grosseira, sem acrescentar nada ao personagem (a não ser uma certa bipolaridade: o sujeito calmo e quase zen, na hora do sexo libera toda sua energia contida). Outra brincadeira com a inteligência do espectador é forçar uma trama de vingança. Enquanto, como dito acima, o original se vale de uma ação gradual que convence, aqui as coisas começam a acontecer sem a menor lógica para dar alguma motivação para a trama. Coincidências como a cena em que um personagem que Bishop dava por morto, aparece justo no aeroporto em que o protagonista estava, ou Steve perceber a arma que fora de seu pai e deduzir que este fora morto pelo personagem de Statham, só servem para menosprezar a boa vontade de quem gastou alguns trocados para assistir ao filme no cinema. E também pra demonstrar como os roteiristas hoje em dia são covardes em não assumir a natureza assassina e mercenária dos protagonistas. Sim, porque se no original matar era a profissão, agora se torna um meio para um fim mais "nobre".

No fim, a refilmagem vai se tornar aqueles filmes de Super Cine, com sua trama rasa e visual bacana e que você provavelmente nem vai lembrar que assistiu quando acordar no domingo de manhã.

P.S.: uma coisa preciso reconhecer: os pôsteres do filme foram muito bem feitos, a maioria fazendo referência aos anos 70 e até mesmo um que replica o pôster do primeiro filme.

Continua...
 
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