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Baú do RE-ENTER: O Terceiro Homem (1949)

A maior qualidade de O Terceiro Homem talvez não resida na incrível direção de fotografia, nas ótimas interpretações ou no comando do longa, a cargo do competente cineasta Carol Reed. O que faz este filme de 1949 ser fascinante até hoje é que, embora se passe num período importante da história recente, na Viena pós-Segunda Guerra, não há nenhum sinal de ter se tornado obsoleto pela idade. O Terceiro Homem, com sua discussão acerca do lucro às custas de vidas inocentes, sempre será atual, seja quando da destruição e da pobreza que surgem num momento de conflito ou simplesmente pela exploração de países subdesenvolvidos.

Assistir ao longa com esse pensamento ajuda na compreensão do mundo movido pelo dinheiro. Claro que em O Terceiro Homem esse lucro é mostrado como um crime, já que envolve remédios falsificados e vendidos no mercado negro, mas não é difícil traçar um paralelo com um thriller mais recente como O Jardineiro Fiel, que também tinha como pano de fundo vidas humanas desrespeitadas a troco do lucro envolvendo medicamentos, mas de uma forma mais perturbadora, uma vez que neste último era o próprio laboratório o responsável. Outra diferença também está no fato do roteiro do filme de Reed se desenvolver de uma forma muito mais leve, se permitindo, inclusive, a usar do humor (de forma muito sofisticada) em alguns momentos. Isso se deve a Graham Greene, que criou e roteirizou a história (e depois a adaptou no formato de livro) como uma espécie de sátira ao que estava acontecendo na Europa naquele momento e de como a intervenção norte-americana não estava melhorando a situação.

O filme começa com a chegada a Viena do escritor Holly Martins (Joseph Cotten), a convite do amigo Harry Lime (Orson Welles), que havia lhe feito uma proposta de trabalho. O problema é que Martins chega apenas para descobrir que Lime acabara de morrer. Pra piorar a situação, um policial inglês, Calloway (Trevor Howard), e seu assistente, Paine (Bernard Lee, o primeiro M dos filmes do 007), começam a persegui-lo atrás de respostas sobre o envolvimento do personagem de Welles com o mercado negro. O protagonista obviamente não sabe nada sobre isso, mas começa a investigar o que está acontecendo para, pelo menos, tentar descobrir a verdade sobre seu amigo.

É muito inteligente como a maré de azar que acomete Martins é prenunciada logo em sua segunda cena em Viena. Antes de entrar no prédio onde Lime mora, o escritor passa por baixo de uma escada, sem se dar conta. E a tomada é feita de forma sutil, sem chamar a atenção para o fato, mostrando-o como algo trivial. Uma brincadeira visual típica de alguns diretores ingleses (Alfred Hitchcock fazia esse tipo de coisa o tempo todo) e que dá ao longa a medida certa de ironia para que não se torne cansativo, mesmo para quem não está acostumado ao cinema da metade do século passado.

Outro estímulo visual, desta vez sob responsabilidade do diretor de Fotografia Robert Krasker (que levou o Oscar por este trabalho) é a escolha de várias tomadas com a câmera inclinada, ou "ângulo holandês". Usada para valorizar os amplos cenários, essa técnica também representa a quebra de expectativas e a crescente paranoia que passa a envolver o protagonista, ajudando o espectador a compreender a angústia de Martins conforme passa a descobrir os negócios sombrios de Lime. Falando em sombras, Krasker também auxilia a narrativa com a iluminação, fazendo prevalecer muito mais o que não é iluminado, numa nítida inspiração expressionista.

O Terceiro Homem também ficou conhecido por sua trilha sonora, executada apenas em uma cítara pelo músico Anton Karas. A escolha é incomum, já que para thrillers de espionagem da época, grandes orquestras eram responsáveis pela execução da música, mas funciona tanto para dar ao longa uma enorme impressão de realidade, por não ficar presa ao convencional e se basear num ritmo regional austríaco, quanto para que a audiência tenha a mesma noção de "peixe fora d'água" do protagonista, preso a uma terra estranha.

Mas, como dito logo no primeiro parágrafo o longa de Carol Reed nunca ficará velho por sua ácida compreensão da natureza humana. E o diálogo entre os personagens de Cotten e Welles na roda gigante é o maior exemplo disso. Quando Lime explica suas intenções, o texto não esconde que aquele homem é completamente movido pelo dinheiro e pelas circunstâncias criadas pelo próprio cenário em que se encontra. Mesmo com 63 anos de idade, a visão de mundo passada por O Terceiro Homem é assustadoramente atual.
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Baú: Planeta dos Macacos - Os filmes originais

Pra comemorar o lançamento do novo filme, que reinicia a franquia Planeta dos Macacos, este post fala sobre os 5 longas clássicos, produzidos entre 1968 e 1973. Os textos referentes aos filmes contém spoilers, então se você não conhece a saga pode optar por procurar conhecer lendo o post ou assistindo as obras. Pro último caso, volte aqui pra ler as críticas e deixar sua opinião nos comentários ;)

Boa leitura!


O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, 1968) - A primeira cena do filme que deu origem à franquia já dita o tom. Taylor, o astronauta vivido por Charlton Heston, se prepara para entrar em hibernação em sua nave, que está em missão de exploração, enquanto divaga sobre a condição humana na Terra. Ao contemplar a vastidão do universo, imagina se em algum lugar existe uma civilização melhor, onde um homem não deixa uma criança passar fome e nem inicia guerras com territórios vizinhos. O personagem é mostrado desde o início como dono de um cinismo latente sobre a civilização de sua época, os anos 70. Quando um acidente com sua nave o faz cair em um planeta aparentemente inóspito e um de seus colegas de viagem resolve colocar uma pequena bandeira americana no solo, como símbolo da sua chegada no local, Taylor dá uma gargalhada quase perversa. Ele entende a tolice do ato. De acordo com os computadores, eles avançaram mais de 2000 anos no tempo, fazendo a atitude de seu parceiro se tornar completamente irrelevante. Quem garante que o ser humano já não se destruiu em seu planeta natal? De que adianta demarcar esse novo lugar com o símbolo de uma sociedade que talvez não mais exista?

Ao descobrir que o planeta é habitado por uma raça primitiva de humanos, constata a seus amigos: "vejam pelo lado bom: se isso for tudo que esse planeta tem, em alguns meses estaremos governando-o". Ele entende a natureza dominadora de sua espécie sobre o mais forte. Isso é o que salvará sua pele no decorrer do longa. Após esse encontro, é surpreendido pela verdadeira raça dominante e inteligente: os primatas do título. Dominado pelos macacos, é levado para um centro de pesquisa onde provavelmente seria dissecado não fosse pela intervenção de Zira (Kim Hunter) e Cornelius (Roddy McDowall) um casal de jovens cientistas que acreditam na história de Taylor e prometem ajudá-lo. O problema é que os líderes do governo símio, representados pela figura dominadora do Dr. Zaius (Maurice Evans), fazem de tudo para desacreditar os dois, usando a prerrogativa da heresia. Assim como nos períodos da humanidade em que a ciência fora considerada tabu por desmistificar boa parte dos conceitos religiosos acerca da criação do Homem. Taylor e a dupla de macacos cientistas representam as mentes pensantes que fazem qualquer civilização evoluir quando decide ampliar seu pensamento à novas ideias. O condicionamento à textos sagrados é tanto que em determinado ponto da fita, um dos macacos se nega a acreditar que o astronauta (considerado um animal) tenha a capacidade do raciocínio, apenas por este não conhecer as antigas escrituras símias.

Com direção de Franklin J. Schaffner, O Planeta dos Macacos tem um valor que vai além da conquista cinematográfica, que não foi pouca, graças à maquiagem criada por John Chambers, vencedora de um Oscar honorário. Sua representatividade e os paralelos que traça sobre o caminho que o Homem tem trilhado e que só poderá levar a um destino trágico, fazem o longa ter enorme relevância mesmo nos dias de hoje, 43 anos depois de sua estreia. E seu revelador final, uma das cenas mais memoráveis do cinema, encerra de forma crua e pessimista as discussões iniciadas pelo monólogo na introdução do filme. Filosofia, crítica social e Ficção Científica sempre andaram de mãos dadas e aqui a harmonia gerou um clássico.

De Volta ao Planeta dos Macacos (Beneath the Planet of the Apes, 1970) - Seguindo exatamente de onde o anterior termina, este segundo filme sofre por dois motivos: primeiro porque não precisava existir e segundo é que, já que existe, perde sua força graças à recusa de Charlton Heston em voltar à seu personagem. Pra que o filme não ficasse completamente desconexo, Taylor desaparece (literalmente) logo no início para dar lugar a um novo personagem, Brent (James Franciscus), colega astronauta que é mandado em missão de resgate e, seguindo a trajetória feita pela nave da produção anterior, acaba chegando no mesmo lugar dominado pelos símios. Por causa disso, De Volta ao Planeta dos Macacos perde um bom tempo com o novo protagonista refazendo os passos de Heston. Enquanto isso, os macacos, liderados pelo General Ursus (James Gregory) se preparam para sair em missão de exploração da Zona Proibida, um lugar onde acreditam haver vida, humana ou não. Embora seja mais voltado à ação (pros padrões de um filme do começo dos anos 70), o tempo que o filme perde em contextualizar Brent chega a ser irritante, levando a trama a apenas mostrar seu intento nos 40 minutos finais, com a descoberta de uma civilização subterrânea que idolatra uma bomba atômica. O clímax deste segundo exemplar da série acaba funcionando mais como conclusão do primeiro filme, já que termina de forma trágica e deixando pouco, ou quase nenhum, espaço para uma sequência. Mas, claro que isso é Hollywood e eles sempre dão um jeito de continuar.

A Fuga do Planeta dos Macacos (Escape From the Planet of the Apes, 1971) - O terceiro filme da franquia começa em 1973, com a chegada de uma nave em uma praia da costa norte-americana. O exército se mobiliza para resgatar o veículo e quando três macacos usando roupas de astronautas se revelam como seus tripulantes, o espanto é geral. Os chimpanzés cientistas do filme original, Cornelius e Zira, além de seu colega Milo, conseguiram fazer a antiga nave de Taylor funcionar e fugiram de sua época antes do apocalíptico final do longa anterior. Embora pareça forçado que o texto tente convencer o espectador de que durante o clímax do segundo filme, os três macacos estavam fugindo na nave praticamente que afundou no lago do original, este longa é melhor que antecessor. Primeiro porque traz a história para um novo cenário, a Terra nos anos 70, o que garante à sequência um certo frescor, em termos de temática. E segundo porquê o roteiro de Paul Dehn (que escreveu todas as sequências) funciona como uma espécie de sátira à sociedade da época. Existem momentos muito inspirados, como quando Cornelius revela ser o marido de Zira para uma comissão que pretende entender suas intenções. Imediatamente, um padre tenta se manifestar e é repreendido por um dos membros do governo americano que diz algo do tipo: "calma, chegaremos nisso mais tarde". Há também a primeira versão do que levou a Terra a ser dominada pelos símios. Uma praga que dizimou cães e gatos e fez com que os humanos adotassem novos animais de estimação: os macacos. Cada vez mais treinados a fazerem tarefas domésticas até que um disse algo que, nas palavras de Cornelius, "estava acostumado a ouvir sua vida inteira. Ele disse: 'não!'". E não é assim que começam as revoluções pela busca de liberdade? Embora se possa argumentar que uma segunda continuação fosse desnecessária, A Fuga dos Planetas dos Macacos surpreende, mas não atinge todo seu potencial, servindo mais como uma introdução pra verdadeira história que está por vir.

A Conquista do Planeta dos Macacos (Conquest of the Planet of the Apes, 1972) - 20 anos depois de Cornelius e Zira voltarem para o passado, seu filho, César (Roddy McDowall) está vivo aos cuidados de Armando (Ricardo Montalban), um dono de circo que sabe das capacidades do chimpazé inteligente. Porém, aos olhos do governo totalitário que se instalou na América, César é apenas mais um entre tantos macacos treinados para afazeres domésticos, mas que na verdade são tratados como escravos. Nesse cenário de maus tratos e abusos, César começa a ter ideias revolucionárias que se unem ao sentimento de vingança pela morte de seu amigo vivido por Montalban, além dos traumas acumulados após presenciar a crueldade pela qual sua espécie passa nos campos de treinamento de macacos. O trunfo de A Conquista... está na construção de César. Quando o filme começa fica bem claro de que ele não está acostumado a ser mal tratado, mas a partir do momento em que precisa viver sozinho, enfrenta todo tipo de discriminação, principalmente por parte do governo, aqui representado pela figura autoritária do Governador Breck (Don Murray). Como nos anteriores, a crítica social está presente e dessa vez traça um paralelo com a perseguição nazista aos judeus. Isso fica bem claro nos ícones escolhidos para representar ambos os lados. A polícia usa um uniforme negro e austero que remete imediatamente à indumentária dos soldados da SS de Hitler. Já os símios usam macacões que são envoltos por uma tarja na manga que indica a função à qual pertencem. Mas, o melhor do longa fica para o final, surpreendentemente violento, mostrando a revolta dos macacos contra seus mestres. A sequência de 30 minutos é extremamente eficiente em escancarar a revolta graças a direção de J. Lee Thompson, que criou o mais sombrio e pesado de todos os filmes da série. Aqui, inclusive cabe um adendo. A versão original da produção termina com o cruel linchamento do Governador pelos primatas revoltosos, após um emocionante discurso de César. Por ser considerado pessimista demais, um outro final foi criado mostrando o líder dos macacos tendo uma atitude de clemência, graças ao apelo de Lisa (Natalie Trundy), macaca de estimação que grita "Não!" se tornando então o primeiro símio a falar, além é claro do próprio César. Essa versão traz uma conclusão um pouco mais otimista, deixando implícito que poderia haver uma coexistência pacífica entre as duas raças. Porém, no lançamento do filme em Blu-ray, o final original foi restaurado e incorporado numa versão "Sem Censura", e funciona melhor do que a edição pra cinema. Principalmente levando em conta como a história se desenvolve no filme seguinte.

A Batalha do Planeta dos Macacos (Battle for the Planet of the Apes, 1973) - O filme que encerra a série se passa vários anos após seu predecessor, num cenário pós-Guerra, cujos efeitos foram a destruição das grandes cidades do mundo por bombas nucleares e desastres naturais. César (novamente Roddy McDowall) lidera uma comunidade onde macacos e humanos vivem pacificamente, embora os últimos estejam caminhando cada vez mais para se tornarem os escravos que eram os símios antes da revolta mostrada no longa anterior. Dentre os macacos, porém, os gorilas (sempre eles), organizados pelo General Aldo (Claude Akins), acreditam na supremacia de sua raça e no extermínio dos humanos. MacDonald (Austin Stoker), assistente de César, percebe que a ordem naquele lugar está para ser abalada e convida o líder dos macacos a desbravar a Cidade Proibida, onde podem existir gravações de Cornelius e Zira, que falem sobre o futuro do planeta, comprometido exatamente por todas as guerras e desavenças que aconteceram e ainda podem acontecer, se as coisas continuarem como estão. Chegando nas ruínas causadas pela bomba atômica, o grupo formado por César, MacDonald e Virgil (Paul Williams, na pele de um sábio orangotango) encontra as gravações, mas também descobre humanos deformados pela forte radiação do lugar. Estes são liderados por antigos militares do filme anterior que temem os macacos e por isso decidem, ao se sentirem invadidos, atacá-los. O que segue é uma trama que envolve escolhas que podem mudar o destino da Terra, um golpe de estado e uma grande batalha entre os mutantes e os macacos. A Batalha do Planeta dos Macacos é muito mais focado em fechar o ciclo da história do que gerar debates filosóficos com as críticas e sátiras dos filmes anteriores, se tornando eficiente justamente por isso. Amarrar as pontas soltas e deixar os ganchos necessários pra explicar o que foi visto nos dois primeiros exemplares, que se passam quase 2 mil anos depois deste. Com J. Lee Thompson de volta à direção, as cenas de batalha são garantia de bons momentos, principalmente pelos efeitos completamente práticos envolvendo bombas, tiros, proezas de dublês e todo tipo de ação que se espera de uma sequência assim. MacDonald entrega mais uma caracterização perfeita do líder César e o final deixa uma mensagem de esperança de que o futuro encontrado por Charlton Heston no filme original possa finalmente ter mudado.
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Baú do RE-ENTER: 5 Filmes que você tem que assistir antes de Super 8

Finalmente estreia nesta sexta-feira, 12 de agosto, Super 8, filme dirigido por J.J. Abrams que promete fazer uma homenagem à fase anos 70/80 do cineasta Steven Spielberg que, não por acaso, é produtor do projeto. Se o filme é bom ou não, você fica sabendo sexta a noite quando a resenha for publicada aqui no RE-ENTER. Mas, por enquanto, resolvi ajudar aqueles que não sabem o que foi a infância da década de 80 até meados dos anos 90, quando a Sessão da Tarde valia a pena ser vista por resgatar filmes que tantos nerds e cinéfilos ainda guardam na memória.

A seguir, fique com um guia de filmes que, se assistidos, podem melhorar a experiência de Super 8. Claro que todo bom exemplar de cinema que se preze deve se sustentar sozinho, mas é sempre importante entender a proposta, principalmente se, para isso, seja necessário conhecimento prévio de alguma coisa.

De qualquer forma, as produções listadas a seguir são obrigatórias até se você nem pretende assistir ao longa do criador de Lost. Se você gosta de cinema, principalmente do bom e velho cinema pipoca de Spielberg, precisa conhecer essas obras. Então, vamos lá?

Tubarão (1975) - O filme que revolucionou o conceito de blockbuster, Tubarão foi a primeira grande produção de Spielberg. A cidade isolada que tem a vida de seus habitantes comprometida por um monstro é basicamente a premissa de Super 8. Do filme, Abrams também usa o outros elementos como um policial local que precisa investigar o caso e ao mesmo tempo lidar com a população e o "menos é mais" que tornou o longa tão célebre: mostrar pouco o monstro, para que impacto de sua revelação no terceiro ato seja muito maior.




Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977) - Esta é a primeira grande obra de Spielberg a lidar com extraterrestres. Estranhos acontecimentos ao redor do mundo e pessoas se sentindo compelidas a se dirigir a um determinado local sem entender o motivo. Nada disso está em Super 8 (momento troll). De Contatos, Abrams pegou uma ideia que na verdade é bem recorrente do diretor que decidiu homenagear: o relacionamento entre um pai desacreditado e seu filho pequeno. Daqui também vem o envolvimento militar na pesquisa que pretende entender o que os alienígenas querem com a Terra.



E.T. - O Extraterrestre (1982) - A maior influência para o visual de Super 8. Não dá pra assistir o trailer do filme recente sem se sentir diante de uma espécie de continuação de E.T. Além disso, assim como no filme oitentista, a nova produção tem como personagem central um garoto passando por um momento familiar difícil. Novamente, o governo surge como uma espécie de vilão com intensões nada amigáveis com a "criatura" que desenvolve uma certa ligação com o protagonista.






Goonies (1985) - Este foi escrito e produzido por Spielberg, mas a direção ficou a cargo de Richard Donner. Um grupo de garotos que acaba descobrindo uma grande aventura é o principal elemento que Abrams colocou em sua história. Melhor dizendo, um grupo em que cada garoto é muito peculiar em suas atitudes, dando força à história e fazendo o espectador se importar com eles. Bom, pelo menos é isso que o trailer mostra, se Super 8 se sai bem nessa questão, é outra história.






O Milagre Veio do Espaço (1987) - Mais um que Spielberg assume apenas como produtor. O comando é de Matthew Robbins, mas a sensação é a de uma obra Spielberguiana. Funciona como uma espécie de anti-Super 8, já que ao invés de um grupo de garotos, a trama envolve idosos que entram em contato com uma raça alienígena, aqui demonstrada como uma forma de vida mecânica que parece ter servido de inspiração para o cubo que o garoto do filme de Abrams encontra.



Claro que a carreira de Steven Spielberg tem momentos até melhores do que os citados acima, e também são importantes para compreender onde Abrams quis chegar com seu filme. Mas, assistindo esses cinco longas, com certeza você poderá aproveitar melhor Super 8 e ter parâmetros pra dizer se gostou mais da homenagem do que do homenageado. Boa diversão!
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Baú do Re-Enter: Chinatown (1974)

Um dos mais memoráveis filmes dos anos 70, Chinatown é dirigido por Roman Polanski, com Jack Nicholson no papel do Detetive Jake Gittes. Situado em Los Angeles, nos anos 30, o filme revive o cinema noir com maestria, numa história em que fantasmas do passado assombram todos os personagens, levando a um desfecho trágico e surpreendente.

O roteiro, de Robert Towne, mostra Gittes, detetive particular especializado em casos de adultério, sendo contratado para investigar Hollis Mulwray, engenheiro do Departamento de Água da cidade. A esposa de Mulwray, Evelyn (Faye Dunaway) é quem contrata os serviços do detetive, pois segundo ela, seu marido não tem passado muito tempo em casa. Pensando se tratar de mais um caso de traição, Gittes aceita o caso. Durante a investigação, descobre uma jovem garota na vida de Mulwray, a primeira vista sua amante, mas ao longo da história, o estopim para algo muito maior.

O engenheiro está tentando impedir que obras prejudiquem a cidade. Essas obras são financiadas pelo fazendeiro Noah Cross (John Houston), seu sogro. Quando Gittes percebe o que está acontecendo, se vê em meio a um jogo de interesses que envolve todos os personagens, inclusive a si mesmo, ao se apaixonar por Evelyn, a Femme Fatale do longa. E se no cinema noir esse tipo de mulher leva o personagem à ruína, em Chinatown não é diferente. O detetive, cego de amor, percebe tudo quando é tarde demais. A relação de Cross com sua filha se torna evidente no momento em que Gittes começa a perder a noção dos acontecimentos, finalmente trazendo-o de volta ao “chão”. Porém, por causa desse segredo sórdido de família, o final do filme não deixa espaço para felicidade. Como numa tragédia antiga, tudo acaba mal quando Jake Gittes resolve exorcizar seus próprios fantasmas em Chinatown, não só o título do filme, mas o bairro chinês de Los Angeles onde há muito tempo, o detetive havia passado por problemas.

Polanski cria, no filme, um cenário pessimista, habitual nas suas obras até então. A sensação, a todo momento, é de que os problemas não terão solução. Pelo menos não uma que beneficie alguém. A música, composta por Jerry Goldsmith na última hora (em apenas 10 dias, depois do compositor original ter sido dispensado), é triste e melancólica, confirmando essa sensação. Um grande destaque do filme é seu desenho de produção, que reproduz com fidelidade a cidade nos anos 30. A ambientação está perfeita.

A produção de filmes noir nos anos 70 não era comum. Chinatown é de certa forma não só uma homenagem, como um certo tipo de ponta-pé para o neo-noir, que iria reviver o gênero nos anos seguintes.

A trilogia de dois filmes

Chinatown é a primeira parte de uma trilogia planejada por seu roteirista, Robert Towne. A segunda parte chegou a ser filmada. A Chave do Enigma, dirigido e estrelado por Jack Nicholson, saiu em 1990. Contudo, o filme foi um desastre comercial e de crítica, afundando as chances de Cloverleaf, sua últma parte, ser lançada. Em A Chave... Jake Gittes investiga o negócio de distribuição de gás natural em Los Angeles. A história se passa nos anos 40. A terceira parte seria sobre a construção do sistema de freeways na cidade.

Irônicamente, o roteiro de Cloverleaf não foi inteiramente desperdiçado. A base da história foi utilizada no filme Uma Cilada Para Roger Rabbit, comédia de ação que mistura atores reais e desenhos animados, dirigida por Robert Zemeckis em 1988, antes de Nicholson resolver dirigir a segunda parte da história.

Uma curiosidade, ainda sobre o plano de levar a trilogia adiante, o ator recusou todo papel de detetive que lhe era oferecido, para que interpretasse somente Jake Gittes.

Chinatown foi o último filme feito por Roman Polanski nos EUA. Por causa de um processo de abuso infantil, o diretor deixou o país para morar na França.
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Baú do RE-ENTER: Laura

Se uma das características do noir é analisar e adentrar a personalidade obscura do ser humano, Laura, dirigido por Otto Preminger inova, pois não apenas usa essa marca do gênero na história, mas também em sua montagem, que privilegia o suspense psicológico, fundamental para o desenvolvimento da trama.


O filme, de 1944, começa evocando o assassinato de uma publicitária, Laura Hunt (Gene Tierney). Na investigação, um triângulo amoroso é revelado. Waldo Lydecker (Cliffton Webb, sensacional do papel), um jornalista, era amigo da moça, noiva de Shelby Carpenter (Vincent Price). Mas, ele sentia mais do que amizade por ela, e por isso resolve ajudar na investigação, que aponta o noivo como o criminoso. Porém, na metade do filme, uma reviravolta no melhor estilo Um Corpo Que Cai muda a história, e o detetive encarregado de desvendar o crime (Dana Andrews) desenvolve um plano mirabolante para prender o verdadeiro culpado.


Ninguém na história é santo. Claro, é um filme noir. O que justifica as ações perigosas do detetive, as motivações de Waldo e a natureza um tanto dúbia de Laura. A interpretação de Cliffton Webb como o cínico jornalista causa risos do espectador atento a seu humor negro e um certo desconforto àqueles que percebem os preconceitos, as manias e a maneira ranzinza do personagem. Por várias vezes, ele zomba de Shelby pelo rapaz não vir de “berço de ouro”. Para Waldo, só isso já justificaria o crime. Um golpe para ficar com o dinheiro de Laura. A publicitária, por outro lado, hora é a santa, hora, a devassa. Aos olhos de Waldo essas duas personalidades são reveladas como delírios de sua mente perturbada.


Voltando à montagem, Otto Preminger opta por jogar o espectador de sopetão na trama. Somos introduzidos ao assassinato de Laura logo no início, sem nem mesmo sabermos de quem os personagens estão falando. Porém, se por um lado a história começa com esse impulso, seu desenvolvimento mostra o que se tornaria marca de Preminger. A linguagem do filme é de uma elegância extraordinária. Os movimentos de câmera, as passagens de cena. Tudo é ritmado, dando um tom primoroso à obra.


Os méritos devem ser atribuidos também ao diretor de fotografia, Joseph LaShelle, vencedor do Oscar por seu trabalho neste filme. Além disso, o tema central composto por David Ruskin, ao mesmo tempo cria expectativas e imerge o espectador na trama.


Produção conturbada


Quem assiste um filme tão bem acabado como Laura, não imagina os problemas enfrentados pelo estúdio para a sua realização. Logo na escolha do elenco, quando Cliffton Webb fora anunciado, críticos destilaram seu veneno. Tudo porque o ator era homossexual assumido. Na época isso era considerado absurdo para os padrões Hollywoodianos. Diziam que Webb “desmunhecava” demais. Porém, sua interpretação se comprovou tão competente, com toda a ironia que o ator colocou no personagem, que se impôs a partir daí, sendo respeitado por suas habilidades de interpretação, que nada tinham a ver com sua opção sexual.


Outro tormento foi a demissão do diretor original do longa. O filme começou a ser filmado por Rouben Mamoulian, porém quando o produtor Daryl Zanuck viu os primeiros copiões, tratou de dispensar o cineasta, colocando em seu lugar o austríaco Otto Preminger, que havia trabalhado numa das inúmeras versões do roteiro de Laura, uma adaptação do livro de Vera Caspary.


Talvez todos esses problemas vieram apenas para fortificar o filme. O resultado final é um clássico do cinema, reverenciado mesmo depois de mais de 60 anos de idade. Laura é um filme dotado de interpretações incríveis, estilo elegante e tem a marca do gênero noir impressa em cada detalhe. Em cada sombra de sua fotografia e em cada parte de seu quebra-cabeças psicológico.


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Baú do RE-ENTER: O Falcão Maltês - Relíquia Macabra


Quando se fala em cinema noir, a imagem de Humphrey Bogart em preto-e-branco, sugurando uma estatueta de um falcão deve vir à cabeça de muita gente. Não é pra menos. O Falcão Maltês, filme de 1941, dirigido por John Houston, é considerado o pioneiro do gênero. E não só isso, um dos filmes mais influentes da história do cinema.

Uma prova é que, mesmo quem não viu o filme, o conhece, pela imagem descrita acima. Uma produção duradoura como essa, não tem sua fama à toa.

Diversas características do cinema noir são tão marcantes no filme, que provavelmente seu status de pioneirismo não seja em vão, embora anos antes, Scarface, de Howard Hawks, já ter inúmeros elementos que fariam dos filmes policiais dos anos seguintes, famosos. Porém, até então, nenhuma produção havia se definido de forma tão forte. O detetive falastrão, interpretado por Bogart, a Femme Fatale vivida por Mary Astor, a trama envolvendo corrupção da moral, ganância e outros temas recorrentes estão todos lá. E, de uma forma nunca antes vista e copiada pelos anos seguintes (incluindo atualmente).

A interpretação de Bogart se tornou famosa e graças a ela o ator retornou várias vezes ao noir se tornando um símbolo dessa forma, na época, diferente de se fazer um filme policial. Em Falcão Maltês, ele vive o detetive particular Sam Spade, que depois de ter seu parceiro assassinado numa investigação de rotina, decide ir fundo até descobrir a farsa criada para que algumas pessoas coloquem as mãos no tal falcão do título, uma lendária estatueta de valor inestimável que a História julgava perdida.

A direção do filme é competente, e muito bem marcada, como era de se esperar de John Houston. Não há espaço para improvisos por parte dos atores, mas os diálogos são ácidos como limão, dando a interpretação uma autenticidade única. No que se diz respeito à técnica, o filme não é uma superprodução, porém seus cenários e figurinos não fazem feio. São rústicos e escuros por conta da cinematografia, proposital para dar o filme o tom desejado e que se tornaria também uma característica visual do cinema noir.

A ganância é um forte tema presente, expondo toda sujeira que o ser humano é capaz de fazer por dinheiro. Mentir, roubar, matar. São atos comuns em um filme noir, e nesse caso não seria diferente. Não há limites para se conseguir um bom punhado de dinheiro no mundo sombrio de Falcão Maltês.

Humphrey Bogart – Ícone do noir

São raros, os casos de atores que fazem papéis recorrentes a um mesmo gênero e que se firmam por tanto tempo como verdadeiros ícones. Humphrey Bogart é um desses casos.

O ator, nascido em Nova York, começou no teatro em 1921, sem nunca cursar aulas de interpretação. Descoberto pelo produtor Arthur Hopkins, Bogart fez seu nome na peça The Petrified Forest. Após 196 apresentações, em 1936 a Warner Bros. comprou os direitos de filmagem e junto, Bogart, que reprisaria o papel de Duke Mantee, o protagonista da história, no cinema. Começava aí, a carreira cinematográfica do ator.

Mesmo fazendo o personagem que lhe rendeu fama nos palcos, a Warner não deu, entre 1936 e 38, papéis importantes para Humphrey. Foi apenas em 1941 que ele voltaria a protagonizar filmes. Com duas produções de John Houston, Seu Último Refúgio e O Falcão Maltês, o ator conseguiu se firmar com papéis significativos.

No ano seguinte, viria, talvez, o maior de todos, quando Casablanca foi lançado. No filme, Bogart fazia par com Ingrid Bergman, na história de um campo de refugiados da Primeira Guerra em Marrocos. A produção é considerada um dos maiores clássicos da sétima arte.

O ator ganhou um Oscar por sua interpretação no filme Uma Aventura na África, de 1951. Morreu 6 anos depois, vítima de câncer e é considerado um dos maiores mitos da história do cinema norte-americano.

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Baú do RE-ENTER: Bullitt

O contexto histórico:

Do final dos anos 60 até 1977, o cinema norte-americano produziu, em massa, filmes policiais, filmes catástrofe e filmes pós-apocalípticos. Os policiais eram extremamente violentos e mostravam a América suja e decadente que há muito não se via na tela grande. O sentimento de revolta pela Guerra do Vietnã era exposto em Hollywood. Somente com a estréia de Star Wars, filme com o clima otimista de uma fábula, o cinema deixou um pouco de lado a visão pessimista que imprimia da sociedade americana.


O filme:

Desta safra surgiram filmes como Operação França e Bullitt. Este último estrelado pelo consagrado ator e piloto Steve McQueen. A película mostra o Tenete Bullitt, policial durão, mas com boa convivência com a mídia na cidade de San Francisco, escalado para proteger uma importante testemunha da máfia durante um final de semana. O problema é que depois de um atentado, a tal testemunha morre e para a culpa não cair sobre si, Bullitt resolve investigar para saber o que realmente aconteceu. Em meio a isso tudo, um promotor público que pretende seguir carreira política e dependia do depoimento do mafioso para ascender. Com esse jogo de interesses, Bullitt precisa passar por cima de autoridades para seguir sua investigação.

São vários os motivos que fazem de Bullitt um filme memorável. Entre eles, a ambientação realista da produção. McQueen treinou durante semanas com a polícia de San Francisco para fazer de sua atuação, a mais fiel possível. O filme foi todo rodado em locações reais. Não há cenários construídos. Além disso, McQueen, como bom piloto que era, fez toda a cena de perseguição do filme, considerada a melhor da história do cinema (falo mais dela jajá). A edição do filme também não faz feio. Não por acaso, foi agraciada com um Oscar. A direção de Peter Yates é estilosa. A seqüência de abertura do filme é um misto de excelente edição com direção competente. E, há também, o jazz de Lalo Schifrin como trilha incidental. A música ajuda em muito o filme com seu ritmo hora suave, hora frenético.


A perseguição:

Porém a grande atração de Bullitt é, sem dúvida, a cena da perseguição protagonizada por um Mustang GT (dirigido por McQueen) e um Dodge Charger (o carro de dois pistoleiros). Por pelo menos dois fatores, essa cena é considerada a melhor da história. O primeiro fator está, novamente, na edição. Não há música, e toda a emoção é depositada no barulho dos motores. O outro fator... o filme se passa em San Francisco e os carros estão a velocidades de 100 a 150km/h. Aí, você que está lendo essa resenha dá risada e pensa: “a essa velocidade eu também já andei”. Bem, se você pensa assim é porquê nunca viu San Francisco. A configuração das ruas nessa cidade é um desafio a qualquer motorista. Tente imaginar um prédio de vários andares. Agora imagine as escadas que ligam os andares. Pois é, assim são as ruas de San Francisco. Viu a gravidade da situação? Dois carros em alta velocidade “descendo escadas”. Desviando de outros carros e de pedestres. Não dá pra ser mais impressionante que isso. Sério, é de dar pena do coitado que mora nessa cidade e tem que fazer exame prático pra tirar a habilitação.


Steve McQueen além de passar credibilidade ao personagem, ainda prova ser um excelente piloto, e também alguém com parafuso solto ou que dá pouco valor à vida. Duvido que essa cena fosse feita, da forma que foi rodada, num filme atual. Primeiro que empresa de seguro nenhuma iria assumir a responsabilidade pelos estragos. E depois que nenhum ator de hoje é louco a ponto de se arriscar tanto. Nem Jackie Chan e suas cenas sem dublê.


Isso torna Bullitt um clássico. O compromisso de McQueen com o realismo. Gerou até um documentário, extra no DVD que comprova tudo que foi escrito aqui e mostra como um filme, com mais de 30 anos, pode sobreviver ao tempo, sem parecer ultrapassado e ainda deixar muita gente impressionada.

Continua...
 
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