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Trilhas Marcantes: A Conversação (1974)

Como se expressa, através da música, sentimentos como solidão, rotina, cansaço, banalidade e paranóia? Sem letra, claro, senão seria muito fácil. Foi essa a missão que Francis Ford Coppola passou para David Shire. A trilha de seu filme A Conversação precisava expor todas as características do personagem vivido por Gene Hackman, um especialista em vigilância que tenta decifrar o significado de uma simples conversa e chega ao que acredita ser uma conspiração.

A música, com elementos de jazz (cujo ritmo está intrínseco à trama), se utiliza apenas de piano, mas tem a força de uma orquestra ao complementar a obra de Coppola como poucas trilhas conseguem.

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Crítica: Uma Manhã Gloriosa

Em uma cena de Uma Manhã Gloriosa, uma das estreias deste final de semana, o personagem de Harrison Ford, um jornalista das antigas e cheio de orgulho de seu passado, enumera em quantos momentos da história recente ele esteve presente. É replicado pela personagem de Rachel McAdams, que diz: "você está nessa pelo dinheiro". É mais ou menos essa a sensação do público, ainda acostumado a Ford como um ator de grandes filmes, ao vê-lo atuando nessa comédia sobre o trabalho que dá produzir um bom programa jornalístico matutino. Ou, como o diretor Roger Mitchell e a roteirista Aline Brosh McKenna parecem entender, um péssimo programa jornalístico matutino que rende boa audiência.

A trama gira em torno da produtora executiva do tal programa (McAdams) tentando a todo custo mantê-lo no ar, já que, além de não aguentar a concorrência do Daily Show, infinitamente mais popular, ainda tem que lidar com uma equipe nem um pouco entrosada. Para tentar elevar a audiência, ela convence a contratação do figurão do jornalismo interpretado por Ford. O problema é que ele não vê com bons olhos a ideia de apresentar um programa cujo ponto alto é o bloco de receitas ou as entrevistas fúteis conduzidas por sua co-âncora, vivida por Diane Keaton, histérica como nunca.

O roteiro é assinado pela mesma responsável de O Diabo Veste Prada e, como um sintoma de roteirista de um sucesso só, a fórmula é muito parecida. Personagens caricatos, a garota que quer se dar bem no emprego, mas tem de aturar o superior rabujento enquanto tentar conseguir algum resquício de vida social.

Se fosse apenas uma comédia romântica em que todos sabem que o final será feliz, o filme poderia até se sair melhor. O problema é que conforme os acontecimentos são apresentados, fica uma sensação, pelo menos por parte de pessoas de bom senso, de que as coisas não vão acabar tão bem. Isso fica claro na cena em que McAdams discute com Ford e diz que na briga entre o jornalismo sério e o entretenimento, o primeiro perdeu. Ora, em tempos em que a informação está a todo lado, essa discussão deveria pelo menos fomentar um certo senso crítico de quem acha que matérias sobre que roupa de verão se pode usar no inverno, podem ser interessantes. O roteiro, em certo momento, glorifica que o sucesso está no grotesco, confirmando que mais vale um grande número de views no Youtube do que o medidor de audiência da TV.

No começo do terceiro ato, até surge a esperança de que o filme possa reverter o estrago e mostra que um bom furo de reportagem também garante público. Mas, de forma completamente aleatória, o personagem de Ford decide que pode também se "rebaixar" e que se constranger não faria tão mal assim. Provavelmente ele pensou no que McAdams diz sobre ser tudo por dinheiro e esqueceu, confundindo personagem com a vida real, como era muito melhor no tempo em que entreter também poderia ser um emprego digno.

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Crítica: Sucker Punch - Mundo Surreal

O trailer de Watchmen, quando lançado, serviu pra duas coisas. Primeiro para mostrar aos fãs da obra original que, da adaptação, poderiam esperar algo relativamente fiel. O outro propósito foi o de vender a imagem de seu diretor, Zack Snyder, como a de um cineasta visionário. O tiro saiu pela culatra já que nem a crítica especializada e muito menos os cinéfilos conseguiram aceitar essa "imposição" da Warner de que seu mais jovem contratado pudesse ser um gênio da sétima arte.

Como seus filmes anteriores eram adaptações de livros, quadrinhos e uma refilmagem, faltava algo saído de sua mente "visionária" para, ou mostrar ao mundo seu talento, ou simplesmente confirmar as suspeitas que, apesar de competente, Snyder seria no máximo, acima da média. Sucker Punch - Mundo Surreal chegou aos cinemas no último fim de semana para, pelo menos, juntar um pouco das duas coisas.

A trama gira em torno de Babydoll (Emily Browning), garota que após perder a mãe e passar por abusos do padrasto, acaba internada num sanatório e é marcada para sofrer uma lobotomia. Ela tem cinco dias para o procedimento e resolve fugir após convencer mais quatro garotas (vividas por Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung), também internadas, que juntas podem escapar dali. O filme todo é sobre fuga. Seja das instalações do asilo, como também das missões que Babydoll cria em sua mente. Mas, acima de tudo, Snyder e seu parceiro de roteiro, Steve Shibuya, fazem um interessante ensaio sobre o escapismo, a fuga da realidade para a superação das mazelas do mundo. Para isso, o diretor coloca suas personagens femininas, maltratadas durante suas vidas, para enfrentar os monstros responsáveis por anos de abuso. Tudo de forma figurativa, com as incríveis cenas de ação que ocorrem na imaginação da protagonista.

Durante seus momentos de fantasia, Babydoll cria mundos fantásticos baseados em misturas de ficção-científica futurista com cenários medievais, nazistas e tecnologia steampunk, animação japonesa, videogames, RPG, quadrinhos e tudo mais que for considerado cultura pop. Tudo embalado por uma trilha repleta de covers com arranjos que encaixam perfeitamente nessa salada. Além de servirem seu propósito de metáforas visuais, as referências mostram como Snyder está confortável em digerir tudo que o influenciou até aqui. Não é a toa que até as músicas são releituras de clássicos pop como Sweet Dreams, Search and Destroy e We Will Rock You.

Um diretor devorado por imagens

Ao contrário da escrita que exige tempo de leitura e decifração, permitindo a escolha entre entrar ou não em seu mundo, a imagem convida a entrarmos imediatamente e não cobra o preço da decifração. A imagem não exige uma senha de entrada, pois o seu tributo é a sedução e o envolvimento. A imagem nos absorve, nos chama permanentemente a sermos devorados por ela (...).

- Prof. Dr. Norval Baitello Jr. As Imagens que Nos Devoram - Antropofagia e Iconofagia.


Com efeitos especiais de grande qualidade e uma direção de arte muito competente em criar tantos mundos (mesmo que baseados em imagens recorrentes à diversos gêneros e mídias), Sucker Punch sai da mesmice de filmes de ação e aventura, constantemente presos à fórmulas já consagradas. A grande sacada de Snyder foi a de criar uma narrativa diferente (que se não é original, pelo menos é incomum) para inserir elementos de blockbuster em uma trama ligeiramente mais inteligente à de filmes dirigidos para a grande massa.

Porém, em meio a tudo isso, há um problema. Como citado na primeira parte do texto, Snyder parece ter a obrigação de provar a capacidade de criar uma obra própria e se perde quando leva sua história a sério demais. Talvez por excesso de zelo com seu primeiro trabalho como autor, ou falta de confiança de que um filme baseado fortemente no visual pudesse agradar seu público, Snyder tenta dar a história uma profundidade desnecessária. A própria existência de seu longa já justificaria sua visão do escapismo. Ninguém, ou pelo menos a maioria, culparia o diretor por devorar imagens e as reproduzir a seu modo, como faz em Sucker Punch com muita habilidade. A grandiosidade do visual faz o espectador aceitar tudo de forma natural. Como a citação acima diz, "a imagem convida a entrarmos imediatamente e não cobra o preço da decifração."

Soa estranho portanto, depois de bagunçar um pouco o último ato, o discurso da protagonista, que sugere ao espectador um esforço de criatividade para juntar os pedaços e tirar suas conclusões. Estranho por ser contraditório, já que ao mesmo tempo que instiga o pensamento, subestima a audiência. E o pior, ao pedir para seu público pensar sobre a obra, Snyder superestima a si, numa auto-afirmação de que seu longa foi feito para a discussão. Ao fazer isso o diretor tenta empurrar para o público mais do que o prato principal poderia oferecer, e pesa um pouco na hora da digestão. Não se engane, como Snyder, você será devorado pelas imagens e também as devorará. Mas ter que aguentar filosofia barata e lição de moral pra sobremesa pode acabar causando azia em muita gente.
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Dissecação de um filme - Coração Satânico (Angel Heart, 1987)

O texto abaixo contém spoilers pesados de Coração Satânico e não é recomendável à quem não conhece o filme e pretende assistí-lo.



Se você não viu Coração Satânico, veja antes de ler o post. Afinal, nenhum filme se resume a uma análise fria de cenas.


Com Chinatown, de Roman Polanski, criou-se uma vertente do filme policial. O neo-noir se refere aos longas com elementos dos thrillers dos anos 30 e 40, mas produzidos após os anos 70 (embora alguns críticos considerem algumas produções sessentistas como neo-noir, Chinatown é, sem dúvida, o maior representante). E na década de 80, houve algumas tentativas bem sucedidas de se emular as características do cinema noir, aquele clássico que você deve conhecer com Humpfrey Bogart como grande ícone. Blade Runner, O Ano do Dragão, Perigo na Noite, entre outros, foram produzidos com muita competência em mostrar o (anti)herói relutante, as femme fatales, as tramas de intriga e os personagens de caráter duvidoso.


Em 1987, o diretor Alan Parker se apossou do estilo (porque os teóricos não consideram o noir como um gênero) para contar uma história de terror e se beneficiou imensamente disso. Coração Satânico é uma adaptação do livro Falling Angel de William Hjortsberg, porém, além da trama principal, o longa compartilha pouco da narrativa literária. Isso porque Parker, como Ridley Scott em Blade Runner, preferiu por uma linguagem mais pessoal, carregada de simbolismos para ajudar no andamento da história. Por isso, Coração Satânico merece uma análise da utilização de símbolos e de sua atmosfera opressiva e decadente. O cineasta, com seu diretor de fotografia, Michael Seresin. e seu diretor de arte, Armin Ganz, conseguiu criar uma obra fortemente baseada no visual mas que não deixa de lado o roteiro, carregado de ironias e subtextos.


Coração Satânico começa mostrando um sombrio beco da Nova York dos anos 50 na escuridão da noite. A neve cobre a calçada e a silhueta de um homem caminha enquanto os créditos iniciais são revelados. Corta para um gato, em uma sacada, e logo depois para o beco novamente, quando um cachorro surge em cena e ameaça o felino lá de baixo. Uma bela caracterização sobre do que o filme trata. Uma caçada, como a trama sugere em seu início, mas também sobre um predador que mantém sua presa acuada, mesmo ela estando em terreno mais elevado, onde aparentemente a ameaça não chegaria. O cachorro desiste de sua perseguição e continua sua caminhada apenas para encontrar um corpo de um homem que teve seu pescoço cortado. Seria a misteriosa figura de minutos atrás, o assassino?





Na sequência seguinte, o filme apresenta seu protagonista, Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke, em uma atuação memorável. Angel é um detetive decadente chamado por uma firma de advogados para atender um novo cliente. Um encontro é marcado entre eles. No caminho, uma cena interessante mostra que Harry, apesar de sua profissão, tem boa índole, como seu nome sugere. Enquanto caminha até seu destino, o vento tira o chapéu de uma senhora e Angel imediatamente o pega do chão para entregá-lo a sua dona.







Ao entrar no local do encontro, o espectador é gradualmente apresentado ao cenário, quando o som, aos poucos, revela um culto religioso acontecendo ali. É uma igreja e Harry chega justamente no momento em que o pastor diz algo como "se você acredita em Deus, abra sua carteira". É uma das ironias do texto, que ficará bem clara quando a verdadeira identidade do empregador do detetive for revelada. Harry observa tudo do alto, como o gato da primeira cena do filme e também como o "anjo" de seu sobrenome.









Em uma sala em algum lugar do prédio, Harry se encontra, finalmente, com seu misterioso cliente, Louis Cyphre, vivido por Robert De Niro. É bom ressaltar como os nomes dos personagens revelam muito sobre suas naturezas. Infelizmente, Harry não foi tão esperto pra fazer a ligação e, de certa forma, na posição dele, ninguém faria. Cyphre revela o propósito desse encontro. Ele precisa que o detetive encontre Johnny Favourite (novamente, o nome sendo usado para dar pistas sobre um personagem). Favourite era um cantor que tinha um contrato com Cyphre e que desapareceu depois da Segunda Guerra, deixando seu acordo para trás. É bom prestar atenção à posição de De Niro em cena. Ele está sentado em uma cadeira levemente elevada, como se todos que fossem visitá-lo estivessem abaixo dele. Sua postura é de um homem que espera reverência das pessoas que o veem naquela cadeira, como um rei em seu trono.



Harry começa sua investigação por um asilo onde Favourite estaria internado com psicose pós-guerra. Essa sequência mostra o protagonista tirando uma carteira de sua mala e escolhendo, entre várias identidades, qual usaria para tentar descobrir alguma coisa sobre seu investigado. Essa cena é interessante por revelar que um dos temas do filme é justamente a busca por identidade, ainda que o protagonista não se dê conta disso até o último ato da trama.



Depois de descobrir que Favourite não se encontra naquele lugar há 12 anos, Harry decide ir atrás do médico que liberou o paciente do Asilo e segue até um bar para pesquisar na lista telefônica. Nesta cena Harry é mostrado atrás de uma janela com um vidro amarelo, na altura de sua cabeça formando uma espécie de auréola, daquelas usadas em pinturas de figuras santas.





Harry vai até a casa do médico e descobre que este é viciado em ópio. Usa isso para tirar algumas informações e como percebe que o homem está quase desmaiando por querer uma dose de sua droga, o tranca em seu quarto, revelando aí um signo que perseguirá o personagem por toda sua jornada: um ventilador. Quando Harry entra com o médico no quarto, o ventilador gira para um lado, mas conforme o protagonista coloca seu interrogado na cama, o ventilador para e começa a girar para o outro lado. Isso vai acontecer várias vezes durante o filme e sempre indicará a morte do coadjuvante em cena, como Harry descobre momentos depois, ao voltar para o quarto e encontrar o médico com um tiro no olho.



Antes, porém, o detetive sai para caminhar e escuta sussurros chamando por seu nome. O que chama atenção nesta cena é a iluminação que privilegia apenas um lado do rosto do personagem, deixando o outro completamente escurecido por uma sombra. É um recurso muito utilizado para revelar dualidades e que funciona muito bem por colocar essa dúvida na cabeça tanto do espectador quanto do próprio protagonista.



Depois do suposto suicídio do médico, Harry se encontra com Cyphre novamente, pois começa a ter dúvidas quanto ao trabalho, já que poderia ser facilmente incriminado por uma morte em circunstâncias misteriosas. Cyphre convence o detetive a continuar sua investigação enquanto descasca um ovo cozido. Como o personagem de De Niro explica, pouco antes de morder o alimento, o ovo é, em algumas culturas, uma representação da alma. Mais uma pista sobre a natureza de Cyphre que Angel deixa escapar, mais por seu ceticismo do que por distração.





Depois de investigar mais um pouco, Harry descobre que se Favourite estiver vivo, talvez se encontre em Lousiana e segue rumo ao sul dos Estados Unidos. É bom lembrar que ao seguir rumo ao sul, o detetive começa sua descida ao inferno como sugere o título do livro que o filme se baseia.


Uma das pistas sobre o paradeiro de Favourite é Margeret Krusemark, antiga namorada do cantor, que, dizem, lida com magia negra. Aqui, outro símbolo é usado como pista para que a trama seja decifrada. O colar de Margaret tem um pingente com um pentagrama invertido, ícone muito usado no Satanismo.



Angel continua seguindo pistas até encontrar a jovem Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet). Mais uma vez o nome exerce função para a história. A garota mais tarde é revelada como sacerdotisa de voodoo e filha de Favourite. Logo depois, Epiphany e Harry protagonizam uma tórrida cena de sexo em que o ritmo é ditado por goteiras no quarto onde o detetive está hospedado. Quanto mais íntima se torna a relação, mais molhada a cena se revela. Sem precisa entrar em detalhes sobre o significado disso, este é o momento chave em que Harry Angel finalmente concretiza sua descida ao inferno. Ao ir para a cama com Epiphany, surge um comportamento selvagem que não havia ainda se manifestado. Neste momento, a água se torna sangue e Harry a ataca com uma violência assustadora.



Quando percebe que estava quase sufocando a moça, Angel se levanta e esmurra o espelho do quarto, que reflete sua imagem em pedaços, revelando como o personagem se sente, e, como é mostrado mais pra frente na trama, como é a sua personalidade.



No final, somos apresentados ao ponto de virada: Harry e Favourite são a mesma pessoa. O cantor havia feito um pacto com o demônio, Louis Cyphre (Lúcifer), vendendo sua alma. Mas, como se achava esperto demais, descobriu uma forma de enganar o "maior enganador de todos" em um ritual para devorar a alma de outra pessoa, neste caso o verdadeiro Angel. Favourite então é convocado para a guerra mas volta desfigurado e com amnésia, assumindo assim, as memórias de sua vítima acreditando realmente ser Harry. Todas as mortes que acontecem foram efetuadas pelo detetive quando a mente de Favourite despertava. Por isso os ventiladores mudavam de direção, representando a outra personalidade, controlada por Lúcifer, comentendo seus crimes. Como dito acima, o momento do sexo é a derradeira descida de Angel ao inferno, pois comete um deplorável ato de incesto, mesmo sem saber.


Há, além disso, outro elemento surpresa, cuja natureza não será revelada neste texto (quem sabe assim, mesmo depois de já conhecer toda a história, quem não tiver assistido ao filme, resolva o fazer). Os créditos finais, são intercalados com Angel/Favourite, descendo por um interminável elevador, representando sua chegada ao Reino de Lúcifer.





Coração Satânico, como já dito, é dotade de forte apelo visual. E é justamente na riqueza da utilização de símbolos e imagens emblemáticas que a película de Alan Parker encontra força para contar uma história relativamente simples (sem ser vazia). Se fosse apenas um filme de terror, sem todas as referências, não se tornaria tão memorável. Assim como se fosse simplesmente um filme visual, sem um roteiro decente, também não mereceria destaque. E a interpretação de Mickey Rourke também ajuda. É interessante reparar em como seu semblante vai mudando durante o filme. Do detetive decadente mas sempre fazendo piadas, a um homem sem identidade, e que deve encarar as consequências de atos feitos em uma "outra" vida, por assim dizer. Assim, o longa, além de ser satisfatório como exemplo do cinema neo-noir, com suas nuances duvidosas herdadas de Chinatown, também não faz feio como terror, na atmosfera pesada e na sensação de perigo iminente.

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Trilhas Marcantes: Vertigo - Um Corpo que Cai (1958)

Uma das obras mais citadas da filmografia de Alfred Hitchcock, Um Corpo que Cai é um suspense sobre medo e obsessão, que coloca o espectador dentro de um jogo psicológico construído pela direção certeira do cineasta.

E, para complementar o filme e criar a atmosfera necessária para o longa atingir seu objetivo, a trilha sonora composta por Bernard Herrmann cai como uma luva. Colaborador habitual de Hitchcock, o compositor é responsável por um dos temas mais reconhecíveis da história do cinema, o de Psicose. Em Um Corpo que Cai, Herrmann criou uma trilha construída em círculos e espirais, exatamente como o Hithcock representa o medo de altura do personagem vivido por James Stewart.

Se o diretor, mestre do suspense, sempre estava rodeado de excelentes profissionais, Bernard Herrmann era um deles. As colaborações dos dois criaram momentos únicos na sétima arte, graças a capacidade do compositor de entender exatamente cada cena que Hitchcock idealizava para seus filmes. Confira abaixo o tema principal de Um Corpo que Cai, recentemente usado por Lady Gaga em seu clipe Born This Way (as referências da garota vão longe!).


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Crítica: Jogo de Poder

Durou pouco a desculpa da Casa Branca pra iniciar uma guerra contra o Iraque, logo depois do ataque de 11 de setembro de 2001. O presidente Bush, com seu discurso de "guerra ao terror", veio a público dizer que uma luta era inevitável para a manutenção da paz. Os EUA começaram a sua batalha contra o país de Saddam Hussein com o pretexto de encontrar e neutralizar armas de destruição em massa. A desculpa durou até outras informações começaram a vazar. Fontes da CIA desmentiram qualquer indício de armas nucleares, que de acordo com Bush eram montadas no Iraque. E o governo fez de tudo para abafar e desqualificar qualquer tipo de vazamento por parte de sua agência de inteligência.

O mais absurdo desses casos foi o que deu origem à trama de Jogo de Poder, filme de Doug Liman que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira. Valerie Plame (Naomi Watts) era uma agente da CIA no comando de operações de contra proliferação de armas de destruição em massa. Sua tarefa era a de buscar informações a respeito destas prováveis armas, reunir os fatos e através deles, concluir quais eram verdadeiros ou não. Em uma investigação do tipo, começam a surgir indícios da compra de tubos de alumínio para o refinamento de urânio por parte do governo iraquiano. Como o urânio tinha como provável origem o país africano de Níger, Plame indica seu marido, Joseph Wilson (Sean Penn), diplomata que já havia atuado naquele país para ajudar na investigação. Wilson concorda e também conclui que não há nada que indique a produção de armas nucleares. Algum tempo depois, Bush inicia a invasão ao Iraque, seguindo exatamente o pretexto envolvendo o urânio africano.

Logo no início do longa, Liman coloca o personagem de Penn em situações que confirmam um forte engajamento político do diplomata, assim como grande convicção de seus ideais. Pois é justamente isso que leva Wilson a escrever um artigo para o New York Times com a sua versão dos fatos, causando um grande incômodo para o governo norte-americano. Em uma atitude maquiavélica, a Casa Branca vaza para a imprensa a ocupação de Valerie na CIA, na tentativa de desviar a atenção do público para a vida pessoal do casal.

Responsável por levar Jason Bourne para o cinema, Liman não perde o ritmo ágil de sua câmera nos primeiros 40 minutos do longa. A partir daí, sem quebrar a tensão e sem parecer arrastado, o roteiro passa a analisar mais o lado humano dos personagens e como toda essa reviravolta poderia afetar suas vidas. De thriller político, Jogo de Poder passa para o drama e para o confronto de ideias. Wilson começa uma guerra inconsequente contra a Casa Branca, arriscando sua carreira e levando uma parcela da população a considerá-lo traidor de sua pátria. Plame, agente da CIA há 18 anos não consegue ter a mesma convicção do marido e por um senso de patriotismo distorcido, mantém-se calada a respeito de tudo. Até perceber o ponto onde tudo estava indo longe demais. E é justamente aí que a película encontra sua força, nas relações entre os personagens e nas interpretações de Penn e Watts.

É importante ressaltar que o filme é bem claro em suas mensagens. Não é anti-americano e nem propaganda esquerdista. O fato é que a história em si depõe contra as ações da Casa Branca. Não precisa ser panfletário para causar asco ao mostrar um membro do governo cogitando vazar uma informação que poderia levar até mesmo à morte de uma agente que jurou defender seu país e assim o fez por quase duas décadas. Claro que a extrema-direita americana não recebeu muito bem a produção e tentou desmerecê-la por "exageros" por sua equipe criativa. Ora, não se pode esquecer que se trata de um produto de entretenimento e liberdades são tomadas para efeitos dramáticos. O pano de fundo, porém, muito bem representado por imagens da CNN e outras emissoras de notícias é totalmente verídico.

Por seu segundo ato humanizado, o discurso mais engajado, feito rumo ao desfecho do longa, não parece forçado e entra naturalmente na cabeça do espectador, seja ele tão politizado quanto o personagem de Sean Penn ou não. O controle de informações para desviar a atenção do público não prejudica o poder, ou aqueles envolvidos na história. Prejudica o povo, que aos poucos, conforme o tempo passa, pode começar a se sentir traído por aqueles que foram escolhidos para representá-los. No fim, a mensagem se aplica a qualquer país que queira honrar sua democracia e que não busca ser lembrado por guerras forjadas na mentira e na paranóia de sua população.

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Crítica: Assassino A Preço Fixo (2011)

Na versão original de Assassino a Preço Fixo, o diretor Michael Winner apresenta o personagem Arthur Bishop de forma espetacular. São 15 minutos sem um único diálogo e que servem para mostrar como o assassino interpretado por Charles Bronson é metódico e "limpo" em suas mortes. Sem precisar de frases de efeito ou alguma cena de ação mirabolante, o espectador capta a essência de Bishop, tornando o restante do longa um bom exemplo de roteiro sem pressa pra contar a história, com a trama evoluindo conforme os acontecimentos, sem nada forçado. Soma-se a isso o subtexto já comentado aqui, o filme original pode não ser uma obra-prima, mas é uma daquelas produções em que se percebe um desenvolvimento e uso de técnicas cinematográficas cada vez mais raras hoje em dia.

O novo Assassino a Preço Fixo, com Jason Statham como protagonista, joga tudo isso pro alto. Embora os elementos de construção do personagem principal estejam lá, graças a falta de uma forma mais natural de apresentá-los, eles surgem brusca e gratuitamente na tela, quase subestimando o poder de dedução de quem assiste.

A trama é basicamente a mesma. Bishop é um assassino de aluguel que vê no filho de um antigo amigo a chance de treinar um substituto (vivido agora por Ben Forster).

Quem dirige é Simon West, um cineasta sem grandes qualidades a não ser criar boas cenas de ação. Nisso, o filme não faz feio, embora demore um pouco a engatar sua primeira sequência mais movimentada. Vale destacar também a fotografia que reforça cores quentes e até adiciona um granulado emulando um pouco o visual setentista. O problema de Assassino... está nas conveniências do roteiro. Se na versão original, o diretor prefere não mostrar a cena de sexo de Bronson com uma prostituta, aqui, ela aparece de forma selvagem e grosseira, sem acrescentar nada ao personagem (a não ser uma certa bipolaridade: o sujeito calmo e quase zen, na hora do sexo libera toda sua energia contida). Outra brincadeira com a inteligência do espectador é forçar uma trama de vingança. Enquanto, como dito acima, o original se vale de uma ação gradual que convence, aqui as coisas começam a acontecer sem a menor lógica para dar alguma motivação para a trama. Coincidências como a cena em que um personagem que Bishop dava por morto, aparece justo no aeroporto em que o protagonista estava, ou Steve perceber a arma que fora de seu pai e deduzir que este fora morto pelo personagem de Statham, só servem para menosprezar a boa vontade de quem gastou alguns trocados para assistir ao filme no cinema. E também pra demonstrar como os roteiristas hoje em dia são covardes em não assumir a natureza assassina e mercenária dos protagonistas. Sim, porque se no original matar era a profissão, agora se torna um meio para um fim mais "nobre".

No fim, a refilmagem vai se tornar aqueles filmes de Super Cine, com sua trama rasa e visual bacana e que você provavelmente nem vai lembrar que assistiu quando acordar no domingo de manhã.

P.S.: uma coisa preciso reconhecer: os pôsteres do filme foram muito bem feitos, a maioria fazendo referência aos anos 70 e até mesmo um que replica o pôster do primeiro filme.

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