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Poucas bandas conseguem ficar muito tempo fiéis ao som do início de suas carreiras, principalmente as formadas dos anos 90 em diante. O que muitos chamam de "experimentação", outros preferem nomear como "adequação" à modas da música, cada vez mais passageiras. Por outro lado, grupos que mantém sua sonoridade "imaculada" conseguem também a fidelidade dos fãs, que sempre esperam do próximo álbum a competência habitual, tendo poucas esperanças de se decepcionar. Pois é isso que o Foo Fighters demonstra em seu novo lançamento, Wasting Light, primeiro trabalho inédito do grupo desde Echoes, Silence, Patience & Grace, de 2007.
A primeira década dos anos 2000 viu crescer o número de adaptações para o cinema de livros de sucesso, principalmente por causa de uma certa saga sobre um bruxo adolescente. Não demorou e todos os estúdios tentaram criar uma franquia que pudesse atingir a maior parcela do público pagante dos multiplexes hoje em dia: os adolescentes. Por enquanto, pode-se dizer que somente Crepúsculo conseguiu gerar o barulho esperado. E é justamente na cola dos vampiros que brilham no sol que Eu Sou Número o Quatro surge, como a aposta da Paramount para seu próprio caça-níquel de origem literária.
Atualmente as animações estão divididas em 3 categorias: as da Pixar, que buscam cativar o espectador com histórias inteligentes e visual perfeito, os trabalhos da Dreamworks, que chamam atenção pelo apelo de comédia e sátiras à histórias conhecidas, sem perder terreno na área técnica e todo o resto, que tenta unir um pouco das duas características das primeiras, mas no fim acaba sempre se voltando para fórmulas batidas, embora mostre alguma evolução em termos de qualidade em texturas e cenários. No meio da primeira década de 2000, um animador brasileiro tentou sair da mesmice e criou, junto com outro diretor, Chris Edge, o primeiro Era do Gelo, um filme divertido, com ótimas ideias visuais e com uma trama que agradava tanto adultos, quanto crianças, estratégia adotada pela Pixar e Dreamworks e que funcionou muito bem neste exemplo. Carlos Saldanha, o brasileiro, assumiu o posto de diretor em mais dois filmes da série, que se não foram bons como o original, também não fizeram feio. Por isso, a estreia de Rio, novo trabalho de Saldanha, gerou tanta expectativa. Claro, isso e o fato do longa se passar na capital carioca, mostrando ao mundo um Brasil diferente do que geralmente se vê. Mais alegre e colorido e menos dominado pela criminalidade das favelas.
A história mostra Blu, uma ararinha-azul, último macho de sua espécie, que cresce nos EUA, aos cuidados de uma garota, Linda. Um belo dia, um ornitólogo brasileiro convence a moça a vir para o Brasil e acasalar Blu com a última fêmea, Jade (num erro grotesco de adaptação de nome quando o original seria Jewel) para tentar evitar a total extinção da ameaçada espécie. Chegando no Rio, acabam tendo de enfrentar traficantes de aves, ao mesmo tempo que Blu tenta se encontrar com sua natureza e aprender a voar, como a necessidade o obriga. A premissa é até interessante, a de mostrar como é difícil sair de uma situação confortável para enfrentar a vida sem ajuda de ninguém. O problema é que o roteiro não colabora, e a direção também não se mostra tão interessada em criar momentos interessantes o suficiente pra sustentar a mensagem.
Em cada piada e gag ultrapassada, tem-se a impressão de um esforço enorme pra tirar risadas do público. As crianças adoram por não ter tanto discernimento, e os adultos entram no embalo, mas provavelmente se esquecerão do filme ao saírem do cinema. A trilha sonora só é bem utilizada quando as músicas já são consagradas. Quando entram os temas originais do filme, porém, é um desastre. As músicas não empolgam e as sequências, principalmente a do vilão, Nigel, chegam a ser entediantes.
Outro problema de Rio é Saldanha ter se deixado levar por estereótipos mais do que clichês ao retratar a Cidade Maravilhosa. Tecnicamente está belíssima (a tomada aérea que mostra o Cristo com a cidade ao fundo é magnífica), mas a caracterização dos personagens beira a vergonha alheia. Não do segurança que usa fantasia de carnaval por baixo da roupa, mas do próprio diretor, que mesmo não tendo compromisso com a realidade, parece ter tido preguiça na hora de colocar seu próprio povo pro mundo inteiro ver. Ao invés de tentar usar a criatividade, fez uso de situações banais que, pelo menos os brasileiros que moram no Brasil, já estão cansados de ver.
Infelizmente Saldanha, que tem potencial pra não ficar relegado à terceira categoria de "todo o resto", não conseguiu fazer de Rio algo além disso. E, por mais que as animações da Dreamworks estejam cada vez mais caindo na mesmice, até as produções da casa do Shrek surgem mais interessantes, já que o trailer de Kung Fu Panda provavelmente é mais engraçado que os 90 minutos da animação de origem nacional, mas que nem de longe, mantém o espírito irreverente de um povo, também relegado à "terceira" pelo resto do mundo, mas que nunca perde a chance de fazer boas piadas de si mesmo. Parece que Saldanha está há tempos demais longe do Brasil.
No final da década de 60 e começo dos anos 70, o mundo passava por mudanças. Velhos conceitos eram repensados e a juventude mostrava um espírito contestador, pronta para pisotear convenções ultrapassadas. A busca por liberdade de expressão e igualdade foi muito além dos jovens hippies que lotaram Woodstock. Além da música, o cinema, a literatura e várias expressões artíticas foram atingidas em cheio por uma ideologia de mudança. E numa época em que os quadrinhos, mais do que nunca, eram vistos com maus olhos, graças ao impiedoso livro Seduction of the Innocent do psiquiatra Frederic Wertham, jovens escritores começaram a colocar seus ideiais de contestação nas histórias, fazendo com que os super-heróis, símbolos dos valores americanos, finalmente se tornassem relevantes para a formação de leitores que em alguns anos seriam a base daquele país. Dentre os roteiristas responsáveis por mostrar que quadrinhos poderiam ser mais do que uma leitura escapista, está Dennis O'Neil. Embora tenha começado sua carreira na Marvel, ao impressionar Stan Lee com suas histórias, foi na DC Comics que O'Neil iniciou o que se estenderia até os anos 80 como uma revolução nas HQs, seguida por outros autores como Alan Moore, Mike Grell, Howard Chaykin e Neil Gaiman. Antes dele, Will Eisner já havia elevado os quadrinhos a um patamar mais artístico, mas não era mainstream.

O'Neil esteve à frente de Mulher-Maravilha e Liga da Justiça, mas foi com Arqueiro Verde que mostrou a que veio. Havia anos, o personagem sempre foi taxado de Batman de segunda e o roteirista mudou isso, deixando-o mais ideológico, funcionando de forma muito mais contestadora do que como um simples defensor do crime. Depois, no começo dos anos 70, uniu o vigilante esmeralda com o Lanterna Verde, numa das séries mais influentes dos quadrinhos modernos. O título Lanterna Verde/Arqueiro Verde colocava os heróis viajando pela América e fazendo uma análise das transformações pelas quais o país passava naquele momento. Desigualdade social, direitos femininos, racismo. Tudo discutido de forma muito madura pra época. Foi nesta revista que O'Neil provavelmente escreveu as linhas mais importantes de sua carreira. Logo na primeira edição, um negro conversa com o Lanterna Verde e o diálogo é um tapa na cara de anos de quadrinhos voltados para a mera diversão.
"Eu já li sobre você... como você trabalha para os de pele azul... e como você esteve num planeta qualquer ajudando uns caras de pele laranja... e você fez bastante também pelos de pele roxa! Só sei de uma cor de pele que você nunca deu atenção! Os de pele negra! Queria saber... por quê? Responde essa, Sr. Lanterna Verde!"
O Lanterna abaixa a cabeça e não tem como responder essa pergunta.
A partir daí, o autor juntou a ideia do Lanterna como policial incorruptível unindo forças com um personagem de ideais de esquerda, num contexto realista, para mostrar aos jovens que a América não era apenas a terra de oportunidades que a mídia vendia. Foi nesse título que o Arqueiro enfrentou um problema maior que qualquer supervilão: o vício pelas drogas de seu parceiro mirim Ricardito. Na introdução que faz ao encadernado Grandes Clássicos DC - Lanterna Verde e Arqueiro Verde, publicado em 2006 no Brasil pela Panini, O'Neil explica que suas intenções não eram de dar soluções, mas mostrar que os problemas existiam. Não deixar a juventude cair na apatia e na ignorância, como aconteceu com as gerações anteriores.

Depois, O'Neil recebeu a tarefa de reformular o Batman tornando-o novamente o personagem sombrio que sempre foi. Há uma grande confusão com o Homem-Morcego.Muitos atribuem a Frank Miller a transformação do personagem, mas foi O'Neil quem começou isso. Batman fora transformado em piada graças ao seriado dos anos sessenta e era preciso mostrar que o personagem, um dos mais importantes do universo DC, não era aquela figura caricata. Junto com o desenhista Neil Adams (também colaborador na série Lanterna/Arqueiro), criou personagens como Ra's Al Ghul e Thália e colocou o vigilante de Gotham em situações típicas de um bom filme policial.

Nos anos 80, a DC promoveu uma grande saga, a Crise nas Infinitas Terras, que serviu para reorganizar seu universo e simplificar as coisas para os novos leitores que surgiam. Depois da Crise, os maiores personagens da editora tiveram suas origens recontadas e sua atuação repensada. E outros heróis menores também ganharam sua chance. Foi o caso do Questão, vigilante adquirido pela DC após da compra da Charlton Comics. Inspiração para o Rorshchach de Watchmen, o personagem sem rosto nunca foi muito popular. E O'Neil, que vira seu conceito de tornar heróis relevantes sumir ao longo dos anos, foi o nome indicado para reformular o Questão.
Pra isso, o mostra em sua cidade de atuação, Hub City, um lugar mais sujo e decadente que Gotham. Era a chance que o autor precisava para voltar à velhos temas. Interferência da CIA em problemas no estrangeiro, corrupção e uma aula de marketing político, tudo nas páginas de uma revista que agora viria com o selo de "Sugerido para o público adulto". O Questão de O'Neil também desenvolve ao longo da série, uma filosofia zen e questiona seus próprios atos, fazendo jus ao seu nome.
É num arco de histórias do Questão que o roteirista, mais uma vez, cria um diálogo memorável que atinge a paranóia ideológica americana. Uma conversa entre a candidata a prefeitura de Hub City e o atual prefeito, seu marido:
"-Vaca Comunista!
-Como é?
-As coisas que você diz... como pode dizer isso? Isso é... comunismo!
-Sim... e Thomas Jefferson também era comunista. Homens como você chamam comunismo tudo que não entendem. Assim não precisam pensar. Claro que é triste que não entenda o que eu defendo... conceitos como responsabilidade, honra, justiça. Ajudar os necessitados, os desamparados..."
Nessa época, outros títulos ajudaram a DC a criar um selo adulto que depois viria a se chamar Vertigo. O Arqueiro Verde foi um deles, nas mãos do novato Mike Grell, que seguindo a cartilha de O'Neil, também discutia temas atuais e o mais interessante, colocava o personagem usando cada vez menos seu uniforme.
Durante a década de 90, Dennis O'Neil assumiu o posto de editor da DC e foi responsável por definir o Batman para as futuras gerações como o personagem que é hoje.
Sem as discussões políticas e filosóficas, o roteirista também é muito competente, mas foi na época em que tornou os quadrinhos relevantes, que deixou sua marca na arte sequencial de se contar histórias, mostrando ao mundo que até seus maiores heróis precisavam mudar.
Dicas de leitura:
Grandes Clássicos DC - Lanterna Verde/Arqueiro Verde - Ed. Panini Comics
Questão - Zen e a Arte da Violência - Ed. Panini Comics
Na crítica de Sucker Punch - Mundo Surreal, ficou bem claro que o diretor Zack Snyder usou de inúmeras referências na cultura pop para criar a trama visual que seu filme se tornou. Mas, engana-se quem pensa que o cineasta bebeu apenas em fontes recentes como animes, videogames e quadrinhos. Uma das maiores referências em Sucker Punch, que se estende inclusive ao enredo é Brazil - O Filme, dirigido por Terry Gilliam em 1985.
